Faixa amarela

 

Sem bateria no celular, e sem livro, revista ou conversa alheia mais interessante para me distrair, comecei a ouvir com mais atenção as locuções – hoje, chiquemente profissionais e bilíngues – que nos acompanham no metrô de São Paulo. E foi aí que o aviso, “A faixa amarela é o limite da sua segurança”, se tornou uma frase de efeito, quase uma filosofia que poderia ser atribuída a Clarice Lispector, Arnaldo Jabor ou Caio Fernando Abreu nas mídias sociais.

 

“Qual é o limite da minha segurança?”, pensei. Desde criança, nossa segurança é assistida pelos outros: “Não faz carinho no gato, senão ele te arranha”, “Não passa a mão no cachorro, senão ele te morde”, “Não fica perto da janela, senão você cai”, “Não entra na piscina, senão você se afoga”, “Não atravessa a rua sozinho, senão um carro te atropela”. E, ao crescermos, os alertas não cessam: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”, “Não ultrapasse a faixa amarela”, “Mind the gap!”.

 

Assim como descobrimos que nem todos os gatos arranham do nada nem todos os cachorros mordem sem motivo, não é óbvio que temos de “prestar atenção no vão entre o trem e a plataforma?”. Não, não é óbvio. Não é óbvio porque cada um tem sua insegurança, seu limite, sua própria faixa amarela. A varanda da qual você podia cair se transforma no limite do cartão que pode te levar a uma queda no orçamento mensal. A piscina que podia te afogar se transforma na desilusão amorosa que te faz transbordar em lágrimas. O carro que podia te atropelar se transforma no desemprego que te deixa sem rumo.

 

Ao desafiarmos nossas inseguranças internas – mesmo sem querer –, aumentamos a área de conhecimento. Crescemos, ficamos mais sábios, mais tolerantes, aprendemos a respeitar o limite de cada um que está ao nosso lado e a reconhecer nosso limite, decidir o melhor momento para enfrentá-lo. Porém, a cada vitória, percebemos que nossa faixa amarela continua no mesmo lugar. Não importa o número de obstáculos que transpusermos, surgirá um novo em cada fase da nossa vida.

 

Diferentemente da faixa amarela do metrô, ao ultrapassarmos a nossa faixa amarela, ela permanece bem na nossa frente. Estamos, sempre, no limite da nossa segurança.

 

 

*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

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