Fumódromo

 

Se tem uma coisa boa que o então governador de São Paulo, José Serra, fez em sua gestão, em 2009, foi proibir os cigarros em ambientes fechados. Não, esse não é mais um daqueles textos politicamente corretos que insistem em esterilizar nossos pensamentos, até porque o Dia Mundial/ Nacional/ Internacional de Combate ao Fumo/ Tabaco/ Cigarro já passou.

 

Voltar pra casa com o cabelo cheirando a xampu é uma bênção (obrigada, Serra!), mas a melhor contribuição da lei para a população foi o estímulo à inovação: a criação dos fumódromos, um oásis em baladas, restaurantes e bares!

 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o fumo passivo é a terceira maior causa de mortes evitáveis no mundo, portanto, ter um amigo que te acompanha ao fumódromo é mais que uma prova de amor. Assim, de prova em prova, acabei descobrindo que o fumódromo é o lugar mais legal da balada. Lá não tem aquele som alto que nos impede de conversar, nem xaveco barato do qual temos vontade de fugir. Se um cara chegar e perguntar se você tem fogo, pode até ser uma forma de se aproximar, mas com certeza ele está no mínimo um por cento mais interessado no seu isqueiro, mesmo. E toda mulher prevenida tem um cigarro e um isqueiro dentro da bolsa; o cigarro pra se conectar com ela, o isqueiro pra se conectar com ele.

 

Nas empresas, o fumódromo é até uma espécie de spa. Eu lembro que, quando eu trabalhava no mundo corporativo, rolava uma certa invejinha dos não fumantes, quando viam os amigos fumantes tirando um tempo pra relaxar. Se alguém falasse que iria ao shopping tomar um suco, o RH olharia feio, mas descer pra fumar – e socializar – sempre foi corporativamente aceitável.

 

Nos bares e baladas, é no fumódromo que a gente conhece as pessoas mais interessantes. Considero esses espaços uma terceira dimensão. É lá que surgem as conversas mais profundas no menor espaço de tempo possível.

 

Porém, todas essas alegrias já fazem parte do passado. Desde o dia 3 de dezembro deste ano, está em vigor, em todo o país, a nova lei antifumo. Com a justificativa de proteger (oi?) a população do fumo passivo e contribuir para a diminuição do tabagismo entre os brasileiros, estão proibidos os fumódromos em todo estabelecimento fechado.

 

De acordo com o IBGE, o número de fumantes no Brasil é três vezes menor do que há vinte e cinco anos. Cresci comendo cigarrinho de chocolate, vendo propaganda da Marlboro e nem por isso fumo. Uma vez, estava em uma aula de italiano e o professor perguntou quem fumava. Dos sete alunos presentes, nenhum fumava. Ele disse que isso nunca aconteceria na Itália, onde é muito mais comum ver as pessoas fumarem. É claramente perceptível que o brasileiro fuma muito menos, por isso não vejo motivo para tal proibição. Em vez de proibir os fumódromos, seria muito mais produtivo investir em campanhas nutricionais e projetos esportivos. Investir na saúde, e não no vício.

 

Mas como lei é lei, acho que não vai ter muito como fugir disso. Mas eu, como uma não fumante a favor dos fumódromos, levanto a bandeira da inovação e proponho a criação de fumódromo para não fumantes! Pelo menos até todo mundo conseguir se desapegar deste tão recente passado…

 

*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

2 comentários para “Fumódromo”

  1. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Oi, Shellah!! Muito obrigada pelo comentário. E fica tranquila, que nessa nova geração, ser "clean" is the new black, hehehe!
    Beijão,

  2. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    MAIORRAPOIO!
    Nunca fumei um cigarro na vida,(nesta pelo menos).Tem meu MAIORRAPOIO . Uma ilha para NÃO FUMANTES,SEM BATE-ESTACA em qq ambiente é muito bem-vinda.O problema é que pessoas que não são dependentes deste fininho branco tão prejudicial à saúde,podem se tornar talvez muito "desinteressantes"…e CLEAN demais….e serem relegadas a uma solidão ZEN.

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