Gol de mão

 

Caro Henfil,

Retomo o bucadim de prosa com uma exclamativa certeza (a mesma do escritor João Ubaldo): viva o Povo Brasileiro! Um povo que sobreviveu ao regime de exceção e parece ter fôlego para sobreviver ao regime “democrático”.  

O futebol anda em alta (sediaremos a Copa de 2014) e em Brasília as “jogadas” são cada vez mais vistosas – alguns ministros foram cortados –, o mais recente, o velocista ministro do Trabalho (jogador e praticante de tiro ao povo – quer dizer, ao alvo) – retirado da seleção ministerial pela técnica do Brasil.

Parece que o ministro levou o cargo ao pé da letra (começou a dar trabalho demais) e desviou uma verbinha aqui e outra ali – driblou a confiança da técnica, deu um chapéu nos torcedores; foi afastado e afirmou que foi injustiçado – disse que gostaria de fazer parte do ban… – quer dizer, do banco de reservas. Acho que de certa forma ele sempre teve familiaridade com bancos e reservas…

É, meu amigo Henfil… Para o assombro de Lobato – um país é feito de homens e livros e o Brasil é feito de corruptos e papel-moeda. E a população continua sedenta e faminta de século XXI – antes de qualquer iguaria – a honestidade deveria ser servida aos homens públicos como prato principal.

Estamos construindo estádios moderníssimos e uma emissora de televisão envia seus repórteres (nas asas de um jato) para informar sobre o valioso e imprescindível andamento das obras. E a população continua sedenta e faminta de século XXI – antes de qualquer evento esportivo mundial – a educação deveria ser mais que bravata na boca dos homens públicos.

Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?, perguntam sabiamente os Titãs. E o povo ainda encaramujado pela miserável condição humana – responde palavras de água e pão. Querem espalhar o circo e o circo é mágico – principalmente aquele proposto por Selton Mello, Paulo José e Moacyr Franco – nas telas de cinema – principalmente num espetáculo em que as pessoas se reconheçam.

Por estas e outras os homens públicos jamais terão a envergadura do povo que dizem governar e o que é pior: dizem amar. Enquanto se apequenam diante da ganância – diante da falta de escrúpulos e da incapacidade de respeitar o outro.

Vamos sediar a Copa do Mundo de futebol e enquanto o povo brasileiro consegue tirar tudo de letra – os políticos continuam verdadeiros pernas e caras de pau. Eles até tentam ou fingem jogar melhor, mas só marcam gol contra ou de mão. E viva o Povo Brasileiro!

 

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