Graciliano Ramos e os ecos de São Bernardo

 

 

 

A Flip acabou no último dia 7, mas, para mim, longe da bela cidade de Paraty (RJ), a Festa Literária serviu como impulso para reler “São Bernardo”, obra do homenageado da vez, Graciliano Ramos.

 

Primeiro, pensei que daria um bom texto o que autor acharia da Flip, mas, como desconfio de se iria até lá ser recebido com aquela pompa…

 

No fim das contas, optei por outro exercício divertido. Quem sabe uma receita mais saborosa do que aquelas atividades obrigatórias de vestibular que só tornam os jovens mais distantes da leitura de gênios, como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis.

 

Peguei uma dose de realismo fantástico, um pouco de quadrinhos de Stan Lee e adicionei ao realismo cru e ainda atual de Graciliano. De “São Bernardo”, obra mais política dele, tirei Paulo Honório, um protagonista nada heroico. Em seguida, imaginei se, como o Capitão América, dormisse durante uns 80 anos e, de chofre – diria o autor –, acordasse no Brasil dos dias atuais. Como ele se situaria? Quais seriam suas posições?

 

 

Uma das capas para “São Bernardo”, 
lançado na década de 30

Primeiro, é bom contextualizar. Publicado em 1934, “São Bernardo” se desenvolve à medida que Paulo Honório conta sua própria história e liberta a voz do autor para uma análise política e social do meio e também profundamente psicológica sobre um rico fazendeiro de origem pobre que alcançou seu único sonho: conquistar a propriedade de São Bernardo, nas Alagoas, sujando as mãos de terra, suor e sangue.

Sujar as mãos de terra significa que Paulo Honório, lá no início dos anos 30, é um fazendeiro que não possui a nobreza nas veias. Não herdou seu latifúndio, tampouco a oportunidade de estudar. Conquistou tudo com suor e sangue. Principalmente que escorreram dos outros. É uma espécie de coronel “emergente”. De pouco vocabulário, seria incapaz de afirmar que a ética é coisa de filósofos, como um dia fez Eurico Miranda, baluarte do coronelismo futebolístico brasileiro. Simplesmente porque desconhecia tal palavra; muito menos, sua prática.

Apesar de deixar claro, já no primeiro capítulo, que sua meta era fazer um livro de sua vida calcado na divisão do trabalho, Paulo Honório não possui a sofisticação marqueteira de um empresário moderno dos nossos tempos. Não teria, por exemplo, inclinações cabalísticas para batizar sua Fazenda São Bernardo de FSBX, nem possuía imaginação suficiente para “descobrir” campos de petróleo em meio às plantações de algodão. Mas é incrível como sua maneira brutalizada de enxergar o mundo não estaria muito distante dos dias de hoje. Méritos da obra, que, assim como “Vidas Secas”, outro clássico do Velho Graça, segue contemporânea.

Por isso, conforme Paulo Honório vai se abrindo, mais próximo vai se desenhando dos barões do século XXI. É incapaz de viver fora de seu mundo cercado, a despeito de toda riqueza que acumulou. O medo de perdê-la, misturado à inapetência pelo conhecimento, o fazem prisioneiro de sua propriedade.

Ele também é cego para aspectos não materiais. Basta dizer que, quando sua futura mulher, Madalena, lhe pergunta se sua fazenda é bonita, ele não sabe a resposta. Apenas diz que é “regular” em sua produtividade. Passagem que lembra Ricardo Teixeira em uma entrevista à revista “Piauí”, quando também abre seu coração vazio e se mostra tomando champanhe de costas para os jardins de seu hotel em Zurique. Durante tantas estadias na Suíça, o cartola, que reinou por mais de vinte anos na CBF, também era incapaz de notar qualquer coisa fora de seu caminho para obtenção de mais poder.

Graciliano Ramos expõe com tal clareza as frações do pensamento da personagem que também não seria difícil apontar certas posições para alguns assuntos da agenda pública mais recente.

Paulo Honório não votaria contra a PEC 37. No máximo, seria daqueles que mudariam o voto na última hora. Ainda que por seu destemor destemperado, apostaria mais na primeira opção, agindo como um corrupto que não vê problema em se mostrar assim aos olhos de todos.

Paulo Honório também era incapaz de ver benefícios na educação. Tanto para os outros quanto para si mesmo. O que faria crer que jamais aprovaria a ideia de destinar lucros do petróleo para a melhoria dessa pasta. Aliás, ele é sensivelmente influenciado pela mentalidade escravista e, portanto, como algumas “socialites” de nossos tempos, provavelmente se escandalizaria com os direitos trabalhistas para empregadas domésticas.

E sobre manifestações? A grandeza da obra faz com que Paulo Honório não seja linear. Por isso, fica difícil apontar exatamente de qual lado o fazendeiro tiraria proveito da situação, como fizeram alguns da ala mais conservadora do país. No entanto, em diversos momentos, ele afirma não se interessar muito por política e também não pertencer a um partido. Mas seu discurso apartidário é desmentido por ele mesmo ao narrar a constante repressão que exercia sobre as ideias “socialistas” de seu empregado e até da mulher, além do financiamento de veículos de comunicação e políticos que facilitassem seus lucros.

Mesmo desgostando da política, é possível prever que a força das circunstâncias o faria ter uma cadeira cativa por anos no Congresso. Aliás, a essa altura também não é preciso explicar muito, em se tratando de questões ambientais, que ele se posicionaria ao lado da bancada da serra elétrica. Não é preciso nem dizer o que Paulo Honório acharia da reforma agrária.

Nesta suposição futurista da obra de Graciliano, o que talvez mudaria fosse justamente o fim. Nos dias de hoje, é possível que seu destino fosse bem menos melancólico do que a solidão que dele toma conta e o leva a escrever sua biografia. Com o livro publicado, não seria espantoso ver Paulo Honório tomando chá com alguns amigos em uma cadeira na ABL.

Leia mais do jornalista Rodrigo Focaccio em “Cultebol”, clicando aqui

Comentário