Guimarães exala Rosas

 



Grupo encena conto de Guimarães na mostra da ELT: Uma outra margem

 

 

Quando minha filha me contou que ela e alguns colegas iriam montar um projeto inspirado em Guimarães Rosa, fiquei encantada. Sim. Porque Guimarães me encanta sobremaneira.

 

Tudo nele repercute em mim de forma turbulenta e amorosa. Não que uma coisa seja sinônima da outra. Mas porque Guimarães é este complexo de sentimentos “avessados” que caracterizam sua arte exposta como ferida, que a gente carrega e lambe com medo de se curar e de se esquecer do sábio percurso que permeia a doença.

 

Guimarães tem ritmo e silêncios ensurdecedores. Guimarães se reinventa nos deixando perplexos. Eterniza-se em cada sílaba, que parece estar ali para nos sobressaltar continuamente para não olvidarmos a nossa triste condição de mortais. Entretanto, generosamente nos presenteia com a imortalidade em cada grito calado.

 

Assisti ao início do processo numa apresentação intimista em junho deste ano. E minha colocação ao orientador, diretor e atores foi naquele momento não ter reconhecido Guimarães, em sua mais completa tradução. Foi muito reconfortante o camarada bate-papo pós-apresentação, com almoço estendido. A Escola Livre de Teatro, em Santo André (SP), que os acolhe, permite este entrosamento.

 

Daí… tempos depois, dia 25 de outubro,fui assistir à estreia da Mostra do Processo. Que delícia poder comprovar a evolução da dramaturgia e o amadurecer dos atores Rodolfo Chagas, Renata Santos e Ayiosha Avellar. A cenografia de Leon. A luz de Fernando Melo. A direção do jovem diretor Filipe Ramos sob a batuta do orientador Luiz Fernando Marques (Lubi).

 

Tudo ali transpirava a Guimarães em seu conto A Terceira Margem do Rio, publicado no livro Primeiras Estórias, de 1962. Saí de lá feliz por ter tido a oportunidade de presenciar o resultado. Manifestei minha satisfação e saí de lá repleta. Vontade de ficar sozinha e de saborear aquele momento internamente.

 

Minha filha cresceu e não percebi. Como nenhuma mãe aceita que seu bebê cresça e caminhe por suas próprias pernas. Mas a atriz, essa, sim, embora ainda tenha uma longa estrada, já está no caminho.

 

Hesitei muito em escrever sobre isso, porque fica um tanto quanto cabotino falar da própria carne. Mas o teatro visceral que respiro na ELT me leva a um passado de chumbo e glórias. Dores e conquistas. Me vejo ali naquele grito calado de Guimarães e revejo minha trajetória até aqui. Não sei o que vem por aí, mas sei que até aqui já posso me locupletar de não ter me devastado em vão.

 

E, como disse para mim noutro dia um senhor muito simples, “a vida é uma farra”. Ri muito e completei: “Tem que saber aproveitar para não sucumbir à ressaca”.

 

Vamos então festejar a obra criativa deste grupo de jovens artistas que nos deixa sabor de fruta madura na boca.

 

Convido a todos a ir lá conferir.

 

Peça “Dos dias que carreguei a ausência na ponta do nariz”

Dramaturgia: Cia. Curva de Rio

Direção: Filipe Ramos

Atores criadores: Ayiosha Avellar, Renata Santos e Rodolfo Chagas

Assistência de criação: Julia Anunziato

Concepção de Luz: Fernando Melo

Cenário: Leon Geraldi

Quando: Sábado, 1 de novembro, 20h; Domingo, 2 de novembro, 19h

Onde: Escola Livre de Teatro – Teatro Conchita de Moraes (Praça Rui Barbosa, 12, Santa Terezinha, Santo André, SP, próximo à estação de trem Prefeito Saladino – Linha 10 – Turquesa, telefone 11 4990-4474)

Quanto: Entrada gratuita (retirar convites com meia hora de antecedência)

 

Foto: Shellah Avellar

 

7 comentários para “Guimarães exala Rosas”

  1. Gisele Goldoni Tiso

    Parabéns para Ayiosha e o grupo e parabéns por este texto lindo. Como todos os outros. E certeiro! Bjs . E sucesso nas apresentações

  2. Dagmar Cerqueira

    Orgulho de ter sido aluna de Shellah Avellar!

  3. Ana Lucia Moura

    Adorei amiga! Feliz por vc e pela Ayiosha! Foi uma declaração de amor, de mãe, sentindo a alegria de ver uma obra sua,sim, eles são obras nossas atingirem seus objetivos. A estrada está só no início mas como disse para Gabriela Lima,minha filha, repito para vc: Ainda vamos nos orgulhar muito deles! Amo Guimarães! Pena estar longe! Bjs querida!

  4. Filipe Ramos

    e eu sempre amando o que voce escreve! Obrigado. Te amo

  5. Jose MauroPpires

    CONHECENDO A SHELLAH E SEU RIGOR ESTÉTICO E ARTÍSTICO, SÓ POSSO RECOMENDAR ESTE ESPETÁCULO. É SÓ HOJE. PENA, EU NÃO VOU PODER IR.

  6. Maria Alice Toledo Gaspar

    Parabenizo pelas maravilhas que sempre escreve, querida Shellah Avellar. Cabotinismo ou não, suas crônica nos leva a um gostinho de quero mais,; a um momento que gostaríamos de eternizar…" Felicidade se acha é em horinhas de descuido…" Simples assim…Ficao gostinho de quero mais…" Saudade é ser, depois de ter."… Parabenizo sua filhota e demais participantes. Sucesso. Naseu uma estrela. Bjkas kósmicas

  7. Rosana Bensiman

    Shellah, essa doce experiência é o tal segundo parto do mesmo filho, que revela o verdadeiro eu dessa criatura gerada por nós. Aquele eu do mundo, e não aquele eu só nosso, e visto de uma forma peculiar das mães que acompanham cada mudança desses seres tão amados. Que privilégio ver o making of, e perceber que a revelação é tão regozijante, tão afim com as suas memórias, e tão surpreendente, fruto de planejamento, esforço, talento e sensibilidade, não? Vc tem uma filha verdadeiramente artista, sangue do seu sangue, e não uma artista vazia. Renascer através de um Guimarães Rosa, e numa escola de teatro de alto nível, é como receber um passaporte vip para os palcos do mundo. A sua filhota está pronta, com a bagagem certa, cheia de brasilidade de qualidade, e é isso que vai diferenciá-la dos previsíveis shakespearianos espalhados pelo nosso planeta. Parabéns a vcs duas, e um longo e sonoro m………. para ela por esse projeto, e pelas centenas de outros que vão escrever a biografia dela daqui pra frente. Que ela sempre acione Guimarães Rosa no banco de dados emocional dentro dela, em todo e qualquer espetáculo que participar. Beijão, querida.

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