Impossibilidades da língua portuguesa

Vou contar uma história.

Ano passado eu fui ao cinema – assisti ao filme “Aquarius”, no Cine Sala, em São Paulo; os dois estão recomendadíssimos, tanto o filme, uma maravilha brasileira de encher os olhos de orgulho, quanto o cinema, o lugar mais aconchegante da Vila Madalena. Na fila para comprar o ingresso, já em cima da hora, avistei um amigo da Nina, minha prima. Não lembrava seu nome – nunca lembro o nome de ninguém –, mas é um cara maravilhoso, negro, baiano, professor de felicidade (como ele mesmo diz) em escola pública, cabelão pro alto, brincão, batom escuro, desconstruidão que tem tanto a nos ensinar sobre gênero, sexualidade, educação pública e balada babadeira grátis que rola em São Paulo.

― Oi! – gritei eufórica – eu te conheço! Sou a prima da Nina!!

E já saí abraçando no meio da rua, perguntando como que tá, que bom te ver.

― Desculpa, mas não lembro o seu nome – confessei.
― Liniker – me respondeu.

Eu não sabia onde enfiar a minha cara.

Obviamente, ele não era o amigo da minha prima. Era Liniker, cantor, compositor e ator brasileiro. Provavelmente você já o viu em algum vídeo compartilhado no Facebook (e se não viu, corre no Youtube para conhecer!).

Eu estava morrendo de vergonha, mas tentei disfarçar. Puxei meu namorado e falei: “Olha, o Liniker!!”. “Ah.” Bom, o constrangimento era geral. Corremos com o ingresso e entramos na sala de cinema. E naqueles, talvez, dois minutos, caí em mim e comecei o maior questionamento de todos. Em resumo: eu paguei a minha língua.

Explico.

Outro dia eu vi uma entrevista de Liniker num programa da televisão aberta. Notei que muitas vezes Liniker utilizava palavras que remetiam ao feminino quando se referia a si: cantora; tímida; obrigada. Ao passo que o entrevistador sempre utilizava no masculino. Eu fiquei puta! Como pode todo o tempo uma pessoa se apresentar como um gênero, porque se identifica como tal, e seu interlocutor cortar isso de maneira brutal e, como quem corrige, mudar tudo para o gênero oposto?

E o que eu fiz no dia do cinema?

A mesma coisa.
“Olha, o Liniker!”
O Liniker.
O.
O.
O!!!

Quando me dei conta disso, aí que eu quis morrer de vez.

Que desrespeito, falta de atenção. Discriminação pura só por conta de um “o”. Mas, para me consolar, depois eu fui atrás de outras entrevistas e vídeos a respeito de Liniker e percebi que ela (ou ele?) mescla os dois gêneros de maneira bem equilibrada. A Liniker. O Liniker. A cantora. O cantor. E por aí vai…

E a língua portuguesa, mesmo com tanta malemolência, se fez inflexível feito uma pedra.

Na internet, existe uma coisa chamada (abre aspas) “linguagem inclusiva de gênero”. É o x. Que também é o x da questão. Cantorx. Compositorx. E “ator”? A linguagem inclusiva também exclui e mais uma vez a língua portuguesa se mostra incapaz.

A discussão sobre gêneros está longe de ser aceita pela sociedade tradicional e também de encontrarmos uma solução eficaz de representação. Talvez nem “a” nem “o”, mas “e” para todos? Cantore, compositore, atore. Difícil mudar a gramática e os dicionários – esses talvez sejam os mais resistentes de todos.

Se engana também quem pensa que a discussão sobre gêneros é coisa nova, moda entre jovens. Quem se interessa pelo assunto pode pesquisar sobre o “terceiro gênero” das muxes; indígenas norte-americanos conhecidos como dois-espíritos; gênero binário. É tanta coisa para descobrir e até se identificar. Fora tantas convenções, como as seções de roupa masculina e feminina nas lojas. Pano para manga para um outro dia.

Existem outras línguas que possuem um pronome neutro, que não identifica gênero nas palavras. O português não é assim. Temos ou ele ou ela. E fim. Não sei se um dia irá mudar (mas, se mudar, peço que alguém faça as devidas correções neste texto, já que a maioria dos termos estão escritos no masculino). Mas, enquanto isso, a gente vai dando um jeito e se identificando da maneira que mais nos faz feliz. Porque é só isso que importa, né?

Imagem Liniker: http://virgula.uol.com.br/

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