Irã e Paraitinga


Crianças participam da Festa do Divino 2010. São Luiz do Paraitinga, SP, ressurge,
dia a dia, para a vida.


Não tenho ideia de onde vai dar o imbróglio nuclear no Irã, nem tenho grandes opiniões sobre o tema. Preocupam-me questões muito práticas, que nem sempre são consideradas e tratadas como problema pelos “cachorros grandes” (pronuncio “cachórros grandes”, simplesmente porque gosto assim…).
Em 2000, quando trabalhava em Angola, tive contato, pelo Yahoo Messenger (belo instrumento de comunicação abduzido pelo tempo e pela concorrência), com uma colega virtual que dizia ser do Irã (não posso provar que ela era de lá, já que virtual continuou ela por todo o sempre de nossa relação).
Era uma jovem universitária, que eventualmente conseguia driblar o controle já existente no país sobre a rede mundial de computadores (quer dizer, de pessoas), para entrar em contato com as culturas pagãs do Ocidente.
Neste caso, meu nome, Carlos Brazil com zê, ajuda muito na “indexação” internacional. Quem quer conhecer culturas exóticas logo recorre ao chavãozão Brazil.
Pois bem, do que falamos na ocasião, percebi suas preocupações, seus anseios e sua dura realidade de mulher em um país dominado pelos aiatolás, os machões do Oriente. Mas percebi, também, que, em suas palavras, havia muita vontade de que as coisas fossem diferentes.
Bom, hoje vemos o Irã sob a mesma ascendência dos aiatolás e nas mãos de nosso conhecido Mahmoud Ahmadinejad. Sei que não é o melhor dos cenários para o Ocidente demonstrar confiança nas intenções do governo iraniano. O que lamento, de fato, é que o povo de lá não merece o modo como o seu governo e como a comunidade internacional o vêm tratando.
Depois da aparente frustração do acordo obtido por Brasil e Turquia com o Irã, a tendência de reforço do embargo econômico ao berço da civilização persa só me faz pensar em quanto o povo daquele país sofrerá ainda mais e pagará pelos problemas criados por seus dirigentes e pelas diferenças e desconfianças imputadas pelo Ocidente. Isso é muito cruel e injusto.
Não tenho soluções a dar, nem me pretendo analista de política internacional. Mas fico triste em saber que o povo iraniano certamente acabará pagando toda a conta das diferenças e das fichas empenhadas no jogo internacional de questão tão delicada.
Do Irã para São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo, eu salto, em um parágrafo, como um Macunaíma gordinho, ai! que preguiça!…
Voltei à cidade no fim de semana passado. Estivera lá em fevereiro, logo depois da enchente que tanto a devastou.
 

O casario antigo de São Luiz do Paraitinga recobra a saúde e a cor.

 
A inundação de janeiro deixou marcas nas faces dos casarões.
 
Era o fim de semana de comemoração de sua maior festa (sem considerar o Carnaval, que é um evento, penso eu): a Festa do Divino Espírito Santo. Há alguns anos acompanho anualmente esta celebração.
Pude perceber que, este ano, a festa foi pouquinho menor que a dos anos passados. O que me encheu mesmo de alegria foi ver a procissão, que encerra a celebração religiosa, bonita, forte e repleta de luizenses e de adoradores daquele belo lugar, acompanhando um andor magnífico, onde São Luiz de Tolosa seguia altivo, embora com sua antiga igreja ainda em ruínas.

Só restaram ruínas do que foi a igreja de São Luiz de Tolosa, no Centro Histórico.


No Centro Histórico de São Luiz, alguns casarões coloniais não resistiram.
 
A cidade vai retomando a vida normal. Centenas ainda estão deslocados de seus lares, que foram total ou parcialmente destruídos pela força da natureza naquele 1º de janeiro de 2010. O comércio está, em sua maioria, de portas abertas e quase normalizado. As pessoas mantêm o belo e característico sorriso no rosto luizense. E os imóveis afetados pela enchente estão bem melhores hoje do que em fevereiro.
Também percebemos que o Estado está empenhado em resolver problemas e apresentar soluções àqueles que sofreram com o flagelo das águas.
 

O afogado é o prato típico da festa e da cidade. Carne que desmancha na boca.
 
Não sei por quanto tempo a cidade ainda vai viver sua reconstrução. Entretanto, estou muito mais aliviado hoje, quando observo que o progresso da reconstrução é acelerado, e conta com o empenho dedicado e a vitalidade dos cidadãos e amigos dessa inesquecível cidade. Parabéns, São Luiz do Paraitinga, parabéns, luizenses. E parabéns, também, a todos os iranianos, e iranianas, sobretudo, que ainda provam os perrengues da vida.

Leia também:
“Uma nova São Luiz”, artigo de Carlos Brazil publicado dia 5 de janeiro deste ano, logo depois da enchente.
“Histórias da reconstrução de São Luiz do Paraitinga”, coletânea de reportagens sobre a reconstrução da cidade, publicadas em março de 2010.

Fotos:
Carlos Brazil
 

Comentário