Jornalistas e publicitários não viram o Brasil passar

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“O tempo passou na janela e só Carolina não viu.” O surrado verso de Chico Buarque cai bem novamente. Dessa vez, para o jornalismo e a publicidade do país. Os indicadores socioeconômicos da última década mostram a ascensão e a inclusão de milhões de brasileiros, mas as histórias dessas pessoas pouco apareceram nos meios de comunicação. O Brasil das ruas tem dificuldade para se ver na mídia.

A discrepância entre o conteúdo da comunicação e a realidade brasileira foi discutida na noite de segunda-feira, 26 de novembro, pelos jornalistas Ricardo Kotscho e Xico Sá e o publicitário Ercílio Tranjan no debate “Brasil: Qual Identidade?”, promovido pelo Jornalirismo e realizado na livraria Fnac, em São Paulo.

“A melhoria de vida do brasileiro, nos últimos anos, não foi retratada”, afirmou Ricardo Kotscho, que traçou um panorama do trabalho nas redações dos grandes jornais e revistas do país. Nesse cenário, o repórter que vai à rua ver e ouvir a realidade é uma espécie em extinção. O olho no olho do entrevistado foi substituído pelo contato por telefone ou e-mail. Comandadas por profissionais sem experiência na reportagem, as redações produzem uma pauta burocrática, muito vinculada à agenda do poder. O repórter vira um caçador de entrevistados que possam corroborar as teses elaboradas pelos chefes.

Xico Sá explicou que a ascensão dessa casta de burocratas coincidiu com o enxugamento das redações – com a demissão de repórteres experientes. Nesse ambiente, segundo Xico, o repórter, quando viaja para fazer uma matéria, já embarca com o título pronto. A viagem serve apenas para que o texto seja preenchido. No cotidiano de tempo sempre escasso do jornalismo, quem reina são as empresas de assessoria de imprensa, que cavam espaço para os seus clientes nas reportagens. Clientes sempre prontos a dar entrevistas e salvar a pele do repórter caçador de aspas.

O publicitário Ercílio Tranjan ironizou a situação, lembrando que o jornalismo atual faz uma concorrência desleal com a publicidade. Aparecer na imprensa ainda confere ao anunciante mais credibilidade do que a propaganda. Segundo Ercílio, as fronteiras entre publicidade e jornalismo agora parecem porosas e ele disse ter saudades do tempo em que os jornalistas olhavam feio para os publicitários.

A lição do cinema nacional

Ercílio e Xico Sá vêem no cinema o grande exemplo a ser seguido pelos profissionais da comunicação. Para os dois, os diretores brasileiros têm sido mais eficazes ao retratar a realidade do país. E o mestre dos mestres é o documentarista Eduardo Coutinho, diretor de filmes como Cabra Marcado para Morrer e os mais recentes Santo Forte, Edifício Master, Peões, O Fim e o Princípio e Jogo de Cena, este atualmente em cartaz. Coutinho também trabalhou em TV. Entre os anos 70 e 80, ficou por quase uma década no Globo Repórter. “Isso [começar a reportagem com o título pronto] é o anti-Eduardo Coutinho, é a antigenerosidade diante do entrevistado, é o olhar menos afetivo possível diante do entrevistado, é um grande desrespeito. Eduardo Coutinho é a grande lição de ouvir: ‘Vou ouvir, não vou botar uma ‘aspa’ na tua boca’. Todo repórter novo devia fazer um curso completo de Eduardo Coutinho”, sugeriu Xico Sá. Para ele, não há crise de identidade cultural no país, mas uma crise gigante de contar histórias.

Ercílio Tranjan citou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no ano passado, como exemplo do descolamento da mídia com a realidade. Recordou a surpresa que o resultado provocou na elite do Sudeste, grande produtora e receptora do conteúdo da comunicação brasileira, depois de o governo ter sangrado por vários meses, bombardeado por denúncias publicadas na imprensa. Essa mesma imprensa ignorou o povo e não foi capaz de explicar a vitória de Lula. Para Xico Sá, os veículos preocuparam-se tanto em editorializar o noticiário e fazer campanha que esqueceram de praticar o bom jornalismo e contar a história da eleição.

Xico e Kotscho lamentam o fato de a reportagem ter caído em desgraça nos principais jornais do país, mas ressaltam que ela ganhou espaço nos regionais, como o Jornal do Commercio, do Recife; e O Povo, de Fortaleza. Kotscho lembra com espanto que a imprensa internacional mostra mais interesse por certos assuntos brasileiros do que a imprensa nacional. Cita as questões da Amazônia, como os garimpos, que ganham mais espaço nos jornais estrangeiros do que nos locais.

Para sair do 0 x 0 modorrento

Na opinião de Xico Sá, os principais jornais inverteram uma velha lógica do jornalismo: retardam a publicação do material exclusivo e preferem publicar aquilo que os concorrentes também vão dar. A conseqüência óbvia disso é que os veículos ficam muito parecidos. Muitas sucursais dos jornais pelo país foram extintas. Na opinião de Xico, não há atualmente e não haverá no curto prazo nenhum jornal com uma cara nacional: “Os jornais ficaram num zero a zero modorrento e sem graça. Antes, o repórter podia discutir com os chefes e até os donos do jornal. Esse embate era normal, uma luta para o veículo publicar a melhor notícia. Isso acabou”.

Kotscho afirmou que os grandes veículos só agora estão despertando para a necessidade de voltar a investir em reportagem. Com a difusão das informações pelo rádio, a TV e a Internet, os jornais terão de voltar a buscar diferenciais se quiserem sobreviver e acrescentar alguma coisa ao conhecimento do leitor. E a reportagem pode ser um desses diferenciais.

O jornalista alerta, porém, para a carência de mestres da reportagem nas redações. Houve um grande hiato entre as gerações, ficou faltando a passagem do bastão para os novos repórteres. Segundo Ercílio Tranjan, também houve uma ruptura de gerações na publicidade e agora será preciso reaprender a se comunicar com as classes mais pobres. “Fomos atropelados pela realidade.”

Desprezar o diálogo com a maioria também parece burrice do ponto de vista comercial. Os consumidores mudaram e os anunciantes também. Muitos deles, com bom poder de consumo, são completamente ignorados pela comunicação. Tem algo novo lá na rua. Abre os olhos, Carolina!

7 comentários para “Jornalistas e publicitários não viram o Brasil passar”

  1. Veronica Porsani

    O jornalismo também virou um pouco poético demais. Muitas frases "bonitinhas" para compor uma redação, sem conteúdo. Já assisti diversas reportagens nas quais as pessoas (tema da reportagem) nem abriram a boca.
    Realmente Eduardo Coutinho é mestre em ouvir. Seus filmes cavam histórias de vida. É com isso que a gente aprende.

    Ninguém viu o tempo passar, porque ninguém teve tempo, ou quis, ouvir ele passar.

    Parabéns.

  2. Rafael Coelho

    Realidade x Vontade de mudar
    Pena eu não poder ter ido a este evento… Xico e Kotscho são duas pérolas do jornalismo que estão em raridade. Achei muito pertinente esta dialética que propõe o Jornalirismo! Acho que temos uma realidade, mas essa tem que ser confrontada com a vontade de mudar dessa galera que está chegando. Não adianta cruzar os braços e dizer "é assim mesmo". Devemos nos agarrar aos nossos valores, sonhos e metas e ir para a luta… Parece discurso de um jovem utópico, mas acredito ser possível mudar a situação: devemos começar pela gente. A parada é ir em frente tendo em mente qual é o papel do jornalismo… Social sempre. Abçs!

    www.palavriando.com.br

  3. Fernando Gallo

    É, amigo…
    … a coisa anda braba.
    Parabéns pelo texto!

  4. Esther Gonçalves

    Perdi. Tem gravação do debate?
    Preciso!
    Não pude ir pois estava na faculdade da tal propaganda…e como de praxi: "O tempo passou na janela e só Carolina não viu."

    Faço inicicação com o tema de "publicidade educativa"…a citação deste debate é fundamental!

    Parabéns!!!
    No próximo eu vou!

  5. Madu

    É a colaboração…
    …que vai preencher essa lacuna. Ao menos é o que eu acredito! =)

  6. Andréa

    Ótimo Evento
    O evento foi excelente e a discussão foi muito importante. Quem não foi, perdeu uma ótima oportunidade de discutir s realidade do jornalismo e da propaganda e de ouvir a opinião dos divertidíssimos e ótimos Xico, Tranjan e Kotscho.
    Isso sem falar no Guilherme, que também comandou o debate com muita competência. Parabéns ao Jornalirismo.

  7. Heidi Maria

    [email protected]
    Eles não só perderam o bonde como apostaram anti-povo. Quando abrirem os olhos estarão sujeitos a escrever para meia dúzia de panacas que nem perceberam que são brasileiros.
    Ibsen tinha razão, a mídia pensa no saldo bancário e se vende por pouco.

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