Lição de primavera

Fila do ponto inicial do ônibus, às oito horas da manhã. O dia já não é dos mais frios desse início de primavera na capital paulista; faz sol.

– Oi, tia! – fala para a mulher que passa, cumprimentando e quebrando o silêncio em torno.

– Oi, é você?! Tudo bem? –, responde a mulher reconhecendo e sorrindo, sem se demorar.

– Oi, amigo! –, diz agora para o fiscal, que segue para autorizar a aproximação do próximo ônibus no ponto, e nós passageiros possamos embarcar.

– Tá querendo sentar? –, identifica e responde o homem, interrompendo a marcha, agora sorrindo bem-humorado.

– Tô indo passear.

– E ir à médica é passear? –, retruca a mãe, com censura.

– É –, confirma.

É uma menininha de 4 ou 5 anos, toda vestida de cor-de-rosa, calçados, calças, blusa. O cabelo, crespo e negro, está penteado para trás. As sobrancelhas, marcadas, grossas e escuras.

Ela se adianta e toma a minha frente na fila, que começa a andar.

– Calma, minha filha – repreende a mãe, meio envergonhada, se desculpando comigo.

A menininha caminha de um jeito meio diferente, sincopado e recurvo, com alguma dificuldade, pisando apenas com a ponta dos pés, os dois calcanhares erguidos. E se estica todinha, a perninha, o pé esquerdo pequenino dando impulso na divisória metálica para conseguir galgar e entrar no coletivo alto. Fica no meio do movimento e então a ajudo, pegando no braço, junto com a mãe, e puxando-a para cima, para o piso de dentro do ônibus. Subimos.

– Não liga, moço, ela é muito bipolar – diz científica e timidamente a mãe, que aparenta estar entre 30 e 40 anos e tem o semblante um tanto cansado.

– Não, o que ela tem é uma personalidade muito forte – atalha com elogio a jovem moça que vem logo atrás, contente e embevecida com a espontaneidade e a disponibilidade da menina.

– É, tem – concorda a mãe, meio vacilante, quase sem confiança.

A mãe coloca a menina sentada no banco solitário do lado direito da frente do ônibus e se encaminha à catraca a fim de pagar a passagem. Oferece uma nota de 5 reais para o cobrador, que diz não ter moedas de troco e sugere que ela pague depois. A menininha fica ali, sentada, olhando em volta inquieta, com uma cara bem feia por estar sozinha. A mãe retorna.

Eu passo a catraca, o ônibus logo parte e vai lotando pelo caminho, como é o costume.

Não as vi mais. Fiquei, porém, com o pensamento naquela curiosa menina, que fazia questão de saudar amistosamente os conhecidos que encontrava e para quem ir ao médico era um gostoso e divertido passeio.

Ela caminhava com dificuldade, provavelmente por causa de alguma doença, mas mostrava que a dificuldade e a doença eram mesmas da gente, que desaprendeu a ser todo dia minimamente feliz com o movimento e o brilho do dia.

Créditos da imagem: http://mequetrefismos.com

Um comentário para “Lição de primavera”

  1. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Ah, que texto incrível! Isso mostra que ainda devemos ter esperança e sermos atentos aos sinais que ela nos coloca. A esperança está em toda a parte, em todos os caminhos: o da gentileza, o do amor, o do coração, ou apenas em um ônibus, no trem, no metrô, a pé até. Seja cor-de-rosa, seja cinza, seja a passos largos, seja em passos dificultosos, são nos gestos simples que encontramos as alegrias plenas. Parabéns, meu amigo!

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