Ma(r)ca

Muitas vezes, você reclama do café frio, do ovo passado, da noite ora fria, ora com esparsa chuva. Do horário – sempre atrasado, do metrô cheio, do copo vazio, do fim de semana sem graça. Outras tantas, fica entediado, meio enjoado por causa daquela cicatriz, cismado com aquela foto que ninguém “curtiu”, do seguidor que “desseguiu”, do silêncio à espera de resposta.

Certo dia, então, você pega a sua carteira de vacinação e descobre que precisa tomar uma dose antitetânica. “Vinte e um de outubro de dois mil e quinze”, é o que está escrito no quadradinho. Isso mesmo, aquelas campanhas de vacinação de outrora pairam em sua mente.

Agora, não tem doce.

Agora, não tem “Zé Gotinha” para segurar a sua mão.

Você parte para o ambulatório, e descobre que este não existe mais:

― Vacina, só no hospital ao lado. Segunda à esquerda – brada o vigilante do agora Centro de Reabilitação.

Você vira a esquina, chega ao hospital. “Pronto-socorro”, urra a placa desgastada pelo tempo. “Socorro”, é o que você quer gritar.

Sala de espera cheia, poucos ventiladores para apaziguar o calor insuportável e improvável de uma tarde primaveril.

O seu coração, em compensação, está outonal. Quiçá, invernal.

― Olá, boa-tarde. Vim atualizar a vacinação – diz você, sem graça, à atendente do hospital, que não responde o seu cumprimento.

― É com o atendente ao lado – ela responde, secamente.

Você segue ao guichê do lado. Repete a ladainha. O atendente, atencioso, pega os seus dados. Uma ficha, porta à direita, sala de medicação.

Após conversar com os seguranças, segue o corredor. Ali você vê a realidade e o seu amargor. Macas cheias, pessoas amontoando-se. Enfermeiros, dedicados, dão medicamentos, controlam o soro, observam os pacientes.

Na sala de medicação, um senhor tenta levantar-se, após receber uma injeção.

― Consegue levantar? – pergunta o acompanhante.

― Tô tonto – ele responde, esgueirando-se na parede.

Odor de suor, álcool e fezes no ar.

A enfermeira observa você, sem reação no corredor. Olha na sua mão a carteirinha de vacinação e a sua ficha.

― Vai tomar vacina? – ela pergunta, permitindo-lhe entrar.

Ela olha a sua carteirinha e diz que não é naquele hospital que deve tomá-la, e sim em outro posto de saúde. A vinte minutos dali. De ônibus.

Ela olha para o seu semblante. E você para o dela. Moça parruda, olhos vivos, mesmo naquele ambiente morto. Exibe com orgulho o jaleco branco com bordado verde: “Enfermagem”.

O acompanhante do senhor que se equilibrava na maca do corredor adentra a sala sem pedir licença. Está de boné vermelho, bermuda de time de futebol, camiseta preta.

― Oh, moça, ele pode tomar um banho agora? É que tá num fedor danado, não tá dando pra aguentar, não – ele argumenta.

A enfermeira responde que não é ali para pedir sabonete e água. É na sala ao lado. O acompanhante vira as costas sem ouvir as instruções.

Ela volta-se para você e entrega o endereço do posto. Você agradece e, antes de sair, de supetão, a enfermeira parabeniza pela atenção.

― Não é todo mundo que se preocupa em atualizar a carteirinha… – exclama.

Você replica com um sorriso. Dirige-se para outro posto, não o indicado pela enfermeira. Toma, finalmente, a vacina. Voltará em 2025.

Mas aquela maca do pronto-socorro não sai de sua mente.

Isso é algo que marca.

E, enfim, descobre que algumas coisas, em que muitas vezes pensamos e pesamos como fardos, como difíceis, tornam-se bobagens.

Bobagens que jamais podem deixar que a sua vida fique numa maca, de uma vez.

 

Foto: Keli Vasconcelos

 

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