Marketing da sustentabilidade ajuda a mudar hábitos

É inegável a comoção que vem causando o tema ambiental no mundo e, em especial, no Brasil. Grandes corporações, entre elas os maiores bancos do país, assumem-se entidades sustentáveis. Distribuidoras de combustíveis prometem “zerar” a emissão de carbono de nossos carros, bastando, para isso, o uso de um cartão de plástico. Os meios de comunicação fazem campanhas, exibem ou publicam reportagens e dão grande visibilidade à questão.

Mas até que ponto as ações são efetivas e adequadas?

Possivelmente, o marketing que envolve as ações de sustentabilidade ambiental seja muito mais retumbante que as próprias iniciativas responsáveis. Mas isso não é um grande problema. Temos uma questão de base: é preciso, de fato, ação para reverter os danos causados ao planeta, pelo homem, desde a Revolução Industrial, devido à emissão descontrolada de gases nocivos à natureza.

É claro que muito se tem falado e pouco se colocado em prática. De qualquer forma, é preciso começar, e esse já é um bom sinal. O bom exemplo tende a levar ao engajamento de mais e mais pessoas. Construir uma rede de ações engajadas e responsáveis é o início de uma caminhada destinada a proteger nosso planeta e a garantir um futuro decente às próximas gerações.

Engraçado é pensar em como a nossa consciência vai mudando ao longo do tempo, diante da influência de novos pensamentos e tendências.

Lembro-me da época em que fiz a faculdade de jornalismo. Final dos anos oitenta, início dos noventa. O debate ambiental de então era muito tímido, restrito a pequenas comunidades de pessoas bem informadas e intencionadas. Havia muita desinformação e preconceito. Era comum ouvirmos, ou mesmo pronunciarmos, o termo “ecochato”. Por sorte, essa noção negativa caiu em desuso.

Mas, como tudo na vida do brasileiro, a aplicação de atitudes ambientalmente corretas enfrentava e enfrenta barreiras.

Um professor de então nos contava sobre sua experiência de estudos na Alemanha. Falou sobre o constrangimento que sentiu quando convidou alguns amigos alemães para visitá-lo no pequeno apartamento que conseguia manter com a bolsa de estudos que recebia (hoje, a maior bolsa de doutorado da Capes e do CNPq é de 1.100 euros) e com as aulas de alemão que dava para uma brasileira casada com um local.

Ao ir lavar a louça, os visitantes lhe perguntaram: “Por que você não usa detergente biodegradável?”. A resposta foi simples: o dinheiro não dava para esse “luxo”.

Trata-se de um exemplo de como os europeus já tratavam a questão ambiental há mais de 20 anos. Era uma época em que o debate ecológico ganhava terreno, inclusive no campo político, com a ascensão do Partido Verde alemão, mote, inclusive, para o livro O Verde Violentou o Muro, do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão.

Surge uma realidade dura e difícil de enfrentar. Ainda hoje, ações destinadas à preservação do ambiente custam caro, algumas delas, muito caro. A lei de mercado, que exige empresas eficientes, cada vez mais eficazes na arte de produzir com o menor custo possível, principalmente em um mundo globalizado como o atual, acaba impedindo que, mesmo diante da boa intenção, prevaleça o instinto de sobrevivência imediata. Investimentos em soluções ambientalmente responsáveis podem significar a sobrevivência ou não de uma companhia.

É assim que o marketing pode acabar sendo muito mais visível que o efeito real das ações sobre as quais ele trata. De qualquer forma, esse mesmo marketing é importante ferramenta de conscientização coletiva, de mudança de hábitos e de transformação da sociedade.

Muitas vezes, podemos ouvir alguém falando sobre uma suposta hipocrisia de empresas que se dizem responsáveis apenas para ganhar pontos com a opinião pública, cada vez mais conscientizada sobre os problemas ambientais. Em alguns casos pode haver, mesmo, exageros injustificados. Mas isso tudo é um componente a mais no processo de evolução da mudança de hábitos.

Estamos muito distantes, por exemplo, das ações sustentáveis aplicadas e difundidas em países da Europa, por exemplo. Esses dias, mesmo, recebi uma aula sobre responsabilidade ambiental de minha sobrinha, que viveu alguns meses naquele continente, em especial na Inglaterra, e falou sobre o comportamento adequado daqueles que por lá vivem.

Apontou essa característica como um dos estímulos para que ela quisesse voltar a habitar o velho continente. Expliquei que nosso maior problema eram as lacunas na educação e a falta de recursos para permitir que o povo fosse mais conscientizado sobre o tema. Disse a ela que ficar em nosso país significaria um desafio muito maior, diante das necessidades de transformação, mas isso já é outra história.

Mesmo diante de um certo tom histriônico e marqueteiro de algumas empresas na divulgação de sua conduta ambientalmente responsável, estamos avançando em um processo de conscientização que precisa chegar a cada pessoa.

A mudança de comportamento e de consciência, que transforma costumes e altera atitudes, é essencial para o avanço no respeito ao ambiente. Tomara que não criem hoje outro termo pejorativo, tal como “marqueteiro ecochato”. Deixemos que, mesmo exagerado, o marketing da sustentabilidade ajude a trilhar o longo caminho da mudança de hábitos, permitindo o esforço decisivo e coletivo para a construção de um país e de um planeta mais saudáveis.

2 comentários para “Marketing da sustentabilidade ajuda a mudar hábitos”

  1. Carlos Brazil

    Mentiras e verdades
    Patrícia, muito obrigado por seu comentário. Aí vai o meu: uma mentira repetida por muitas vezes e com bastante ênfase não se torna uma verdade? Aliás, o que é uma verdade? Vivemos num mundo de crenças e de incertezas. As lacunas estão aí todas a serem preenchidas. Quem se candidata?

    Felicidades,

    Carlos Brazil

  2. patricia mariani

    só o de eleitor!
    Caríssimo Carlos,

    Seu texto, além de bem escrito, demonstra que seu coração está se apaixonando pela causa.
    Realmente, quando esta paixão acontece no coração de um jornalista, o mundo é ajudado.
    Milito nesta área por meio de inúmeros sites de comunicação \"construtiva\" e procuro fazer minhas assessorias de imprensa, seja qual for o produto, com este olhar de \"muda mundo\".Só que, querido, se observar bem o que está acontecendo, poderá com clareza verificar que mais uma vez a corda está estourando do lado mais fraco. O cidadão se sacrifica para comprar um detergente biodegradável, andar quarteirões com sacos do lixo que reciclou até o depósito mais próximo, e blá e blá e blá…Enquanto isso,o \"MKT do Bem\" nos faz acreditar que as empresas estão fazendo o mesmo. Não estão não querido!!!Não é o meu ou o seu banho que faz a verdadeira diferença,faz, mas não resolve!Esta é a verdade! É o tanto de água desperdiçada na hora da distribuição.Esta ação, se interrompida fará a verdadeira diferença no que diz respeito à água. E assim por diante. O resto´não é um problema de consumo, mas de investimento na educação, a exemplo de outros países. No dia a dia, resta o escandaloso show de desperdício de tudo, o desrespeito à vida das crianças, dos trabalhadores, da saúde pública e o povo pascóvio pagando a conta. Neste caso, que em primeira instância pode parecer uma leitura amarga,é esperançosa! Aí é que levanto a bandeira de que a imprensa denuncie sim, que não somos culpados pela desgraça do mundo e que como brinquei no \"título! só de eleitor\" o \"MKT do bem\"tenha vergonha na cara e indique quais são as ferramentas que temos para fiscalizar e exigir que a mudança comportamental tão divulgada seja de verdade exercida por cidadãos, empresas e governos!Você acredita mesmo, lá no fundo, que bancos são socialmente responsáveis? O Pessoal que trabalha na área até faz o possível, mas enquanto tiver gente passando fome no mundo, nada disso terá valor. Enquanto trilhões de dolares são gastos com armamento, nada disso terá valor! é tudo modinha meu bem…e pior, feita às custas de gente que tem um coração tão bonito quanto o seu…Não se contetente com pouco, a gente quer e faz por merecer atitudes verdadeiramente dignas enão esse blábláblá de de que o mundo é azul e que vc vai chegar lá, e todo mundo viajando no que se pode fazer com um cartão de credito…o mundo é azul,vamos chegar lá sim , via seriedade, verdade e justiça e muito mais muito amor por nós mesmo e pelos outros.

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