Meu casamento acabou!

Resolvi oficializar meu divórcio na noite do último domingo (7). É preciso algum bom senso para perceber que a hora de desistir chegou. Ou a hora de não resistir mais diante do óbvio: não há mais amor. O que existe é uma esperança de reviver um passado, que não se repetirá nem ao menos se aproximará dos nossos sentimentos, em intensidade, em ressurreição.

A relação começou a se desgastar a partir de 2010. Durante quatro anos, eu e ela optamos por enterrar nossos cadáveres e recomeçar. Não havia saída para colocar a derrota no devido lugar. Perdeu-se, só o caminho do recomeço.

Nunca foi mais a mesma coisa. Vivíamos como um vaso colado, mas que deixa visíveis as ranhuras de um passado que se partiu. Ela investiu na carreira, começou a valorizar ainda mais o dinheiro, quase no nível da exclusividade. Não estou culpando-a pela morte da nossa relação, apenas entendo que passei a observar novas perspectivas, outras possibilidades de vida.

Em 2014, renovamos nossas esperanças. O clima de euforia dominava pessoas próximas, todas com a certeza de que agora tudo iria se solidificar, tudo estaria na trajetória inevitável da felicidade. Ela comprou a ideia, vestiu a proposta, inalou o conceito como se eu não estivesse junto.

E eu não estava lá. Não como ela desejava, como os outros me pressionavam. Nunca reclamei nem levantei nenhuma bandeira contrária. Segui no fluxo como um antropólogo mais rigoroso, que se esforça ao máximo para não se envolver. A consequência direta é que reprimi todas as emoções.

Não me entenda mal. Não me tornei frio. Era possível perceber, quando baixava a guarda, que talvez eu acreditasse numa mudança, na construção de um novo relacionamento, pela união de esforços para manter a vida pulsando perto e dentro de casa.

Aí veio a decepção. E veio como um maremoto capaz de devastar todos os resquícios de orgulho, toda a vaidade, toda a arrogância dela. Veio numa festa alemã, quando pude perceber quem era ela. Sem as máscaras escondidas por anos, sem a camuflagem que se traveste de amor incondicional na hora dos parabéns, dos confetes, das fotos, da vida editada para a sociedade.

Naquela noite, tudo acabou. Não encerrei o ciclo, não me pergunte por quê. Acreditei que poderia haver um processo autocurativo, no qual as cicatrizes ficariam adormecidas, sem cutucões ou rastro de dor.

Quem sabe o amor renascesse por geração espontânea? Quem sabe ela mudasse de comportamento, não à imagem que eu desejasse, mas de maneira que pudesse ser menos cínica, que abrisse mão da empáfia?

Os dois anos seguintes ratificaram o afastamento. A distância cresceu em silêncio, sem brigas, sem conflitos e sem diferenças. Apenas fui me esquecendo dela, assumo a responsabilidade.

Comecei a perder compromissos, que descobria pelo pai dela ou pelo irmão, quando os visitava. As datas importantes viraram um dia a mais. Não alterei minha rotina em nada. Não houve queixa do outro lado também, o que facilitava o cotidiano de cordialidade protocolar.

É preciso reconhecer que ela perdeu importância para mim. Não me identificava com ela. Tenho certeza de que a recíproca era cristalina. A pior morte de um relacionamento é a indiferença. Não é a raiva ou a mágoa. São sentimentos que podem ser transformados, com trabalho duro, dedicação, amor e respeito pelo próximo. Se você quiser sepultar alguém em vida, mate-a pela ausência, não física, mas emocional.

Na noite de domingo, por respeito ao meu sogro e pela companhia do meu cunhado, regado pelo café da minha mulher, Beth, voltei a assistir a um jogo inteiro da seleção brasileira de futebol. Como se questionou um amigo na semana passada, por que insistir num relacionamento que se repete pelos mesmos problemas, pelo mesmo enredo?

Ao sair da casa dos meus sogros, percebi o óbvio: seleção brasileira de futebol, eu quero o divórcio! Não tenho outra, apenas não me importo mais. No futuro, pode ser que eu repita a letra de Humberto Gessinger: “Talvez eu diga, minha amiga, prazer em vê-la, até mais!”.

Créditos da imagem: www.juicysantos.com.br

Um comentário para “Meu casamento acabou!”

  1. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    Pois é.. Marcus Vinicius.. uniões estáveis estão cada vez mais instáveis…a cumplicidade, companheirismo e a parceria estão perdendo o lugar para os "teres" …desrespeito às diferenças e falta de diálogo. Amor é mais que "caminhas ,lençóis suados e arrulhos…um dia.. a gente aprende.. boa sorte pros dois…."cada qual com seu quadrado"…abs kósmikos!

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