Miúdos de Angola

Na manjedoura do Largo da Independência, que alberga a alta estátua em homenagem ao Pai da Nação, António Agostinho Neto (1922-1979), líder da independência angolana, em 11 de novembro de 1975, e o primeiro presidente da República, Luanda vê nascer e crescer seus miúdos.
O Largo da Independência, ex-Largo do 1º de Maio, região central, é para onde marcham, nos fins de semana e feriados, milhares de angolanos, em sua ampla maioria, de miúdos.
E são muito fixe, os miúdos de Angola. Desde que aqui me demoro, nunca me senti tão amado, e tão feliz.
Neste dia de Natal, decerto me confundiram com a Rainha Xuxa e, de verdade, tive mesmo meu dia de Rei dos Baixinhos. Obrigado.
Os miúdos de Angola levam consigo os melhores sonhos do mundo, os maiores, os melhores, posto os mais possíveis. Reconheço cada um com um sorriso. E torço e sonho com eles.
São afáveis, são amorosos, são alegres e, como eu, são carentes, os miúdos de Angola. Gostam de atenção, de carinho, de abraçar e de ser abraçados. Queriam até me beijar, dá um autógrafo?
Vão todos à escola, os miúdos de Angola, não têm computador e nunca navegaram na internet, e também sonham com isso.
Vivem mostrando os dentes bem formados e branquinhos. Os rapazes distribuem cascudos uns nos outros, na arrelia. As moças levam tranças nos cabelos, com miçangas coloridas multiformes, de letras, de frutos, de flores, redondas, espichadas. A alegria começa no cabelo.
Os miúdos de Angola são o futuro de uma nação que se diz de futuro. Um tema que também é muito caro ao Brasil, aquele eterno país do futuro, não é? O hino oficial da Taça de África das Nações, por exemplo, é “Angola, país de futuro”, escrito por Filipe Zau e interpretado por Filipe Mukenga, astro da música (leia e ouça o hino aqui).
Há muito por começar. Por construir ou reconstruir.
Não sabem da guerra, os miúdos de Angola, a não ser essa outra, cotidiana, dura, surda, renhida, tantas vezes sem água, tantas vezes sem luz, sempre com pouco.
E já sabem de política; muitos dos miúdos de Angola desconfiam do atual presidente, há 30 anos consecutivos no poder, e apontam para a estátua de Agostinho Neto atrás de nós: “Aquele era melhor, esse [José Eduardo dos Santos] tem muito olho [ganância]”.
Os miúdos de Angola, ah, quem são? São muitos, são suficientes:
Timo, Moisés, Beto, Dinho, Salvador, Mino, Judite, David, Didi, Pedrito, Mimosa, Luquélia, Dadonas, Lu, Abla, Zé Pequeno, Elisandra, Zé King, Sérgio, Jamila, Pedro, Dadao, Chiquito, Valquíria, João, Francisco, Oliver, Osvaldo, Francisco, Américo, Nélio, Careca, Nico, Taison, Vivian, Mauro, Bebucho, Conceição, João, Tomás, Dumila, Raquel, Egípcio, Adi, Armando, Chico, Paciência, Toni, Nelson, Venâncio, Jesus, Aires, Tino, Jesuína, Diogo, Diguito, Francisco, Eugénio, Silvino, Priscila, Passi, Neide, Kátia, Seba, Nino, Adilson, Linda, Jurema, Éltia, Ivone, Sebastião, Mãezinha, Leide, Danilo, Isolda, Emiliana, Lúcia, Betinho, Alione, Paulucho, Oliveira, Oscar, Fifi, Zeferino, Policarpo, Pedro, Kessi, Cbílson, Emília, Filomena, Magui, Mariana, Francisco, António João.
E são estes seus sonhos, bonitos como todo sonho de miúdo, como todo sonho de graúdo, também:
“Quero ser o presidente Lula”; “Quero ser engenheiro para ganhar muito dinheiro”; “Quero ser jogador de futebol”; “Quero ser jogador de futebol”; “Quero jogar bola”; “Quero ser jogador de futebol”; “Quero ser alguém”; “Quero ser advogada”; “Quero ser uma professora”; “Quero ser doutor”; “Quero ser engenheiro”; “Quero ser jogador”; “Quero ser médica”; “Quero ser cantora”; “Quero ser jogadora de andebol”; “Quero ser advogada”; “Quero ser kudurista”; “Quero ser engenheiro dos petróleos”; “Quero ser engenheiro”; “Quero ser cantora infantil”; “Quero ser kudurista”; “Quero ser professora de português”; “Quero ser polícia”; “Quero ser cantora romântica”; “Quero ser engenheiro dos petróleos”; “Quero ser eletricista”; “Quero ser jogador de futebol no Petro”; “Quero ser jogador de futebol no 1º de Agosto”; “Quero ser polícia”; “Quero ser kudurista”; “Quero ser modelo”; “Quero ser cantora”; “Quero ser Miss Angola”; “Quero ser modelo”; “Quero ser jogador da seleção”; “Quero ser polícia”; “Quero ser mecânico”; “Quero ser polícia”; “Quero ser fuzileiro”; “Quero ser eletricista”.
“Havemos de voltar”, o poema de Agostinho Neto, o poeta-presidente, inscrito na base da estátua, ensina a necessidade de recuperar as raízes ancestrais angolanas, de antes do domínio ultramarino português na região, e os miúdos de Angola ensinam a necessidade de ir adiante.
Havemos de avançar.
 




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6 comentários para “Miúdos de Angola”

  1. AntonioBrandao dos santo

    santo1994
    DESEJEI SEMPRE SER MODELO MAS NUNCA SOBE PEDIR OPINIAO AOS OUTROS.JA QUE VIM NA INTERNET, PECO-VOS AJUDA PARA EU SER MODELO COM TODAS AS MINHAS FORCAS VITAIS.EU VIVO NA CHICALA 2, TENHO 16 ANOS E FACO A NONA CLASE.

  2. Déia

    Que lindo tudo isso. O texto, as fotos e a atitude. Isso sim é Natal.

    beijos e saudades,

    Déia

  3. Germano Gonçalves

    Poxa amigo, isso é realmente dizer que a vida é bela, parabéns pelo sucesso aí no nosso país, pois é só olhar nos rostos dessas crianças pra ver nosso verdadeiro povo. E o texto hem sem comentários…

  4. Carlinhos

    Vale
    Esses miúdos, ou putos, como preferem, valem muito…..

  5. Carlinhos

    Ndengues Kaluandas…..

  6. Alexandre Azevedo

    Não existe amor mais sincero
    E ae Gui! Adorei o seu texto. As fotos ficaram incríveis! Não existe amor mais sincero que o de uma criança. Deve ter sido um momento incrível!

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