Muito é um pouco demais

 

 

 

De uns anos pra cá – mais especificamente com o surgimento das mídias sociais – tenho percebido que o hábito de desejar feliz aniversário-Natal-Ano-Novo-whatever aumentou significativamente. Por mais que saibamos que é uma distribuição aleatória de votos de alegria, sucesso, amor e paz, toda essa energia faz uma boa diferença no mundo, uma faisquinha que seja. Eu, particularmente, gosto de dar felicitações, sou daquelas que dá mais valor ao cartão do que ao presente. E tem uma coisa da qual eu não abro mão nas mensagens que envio: desejo muitas coisas, mas não muito de muitas coisas. Variedade, sim; exageros, não.

 

Quando eu comecei a escrever os cartõezinhos de aniversário e Natal na época da escola, em dias que todo mundo sabia onde era o correio mais próximo, eu tinha certeza de que bons sentimentos nunca eram demais. E assim segui até pouco tempo atrás: sempre quis que todos fossem agraciados com muito amor, alegrias sem fim, felicidade de transbordar o Cantareira, mais amigos do que a quantidade de ministérios da Dilma e sucesso de fazer inveja a qualquer protagonista da novela das oito (barra nove). Só que chegou a vida e me mostrou que mesmo as coisas muito boas podem ficar razoavelmente ruins se forem usufruídas com pouca moderação.

 

O amor, por exemplo. Os muros e tapumes de São Paulo nos imploram, diariamente, por “mais amor, por favor”. Das dez músicas mais tocadas em 2014, de acordo com a lista do UOL (veja a lista aqui), nove falam de amor. A exceção é “Happy”, do Pharrell, que é uma música muito, mas muito feliz, vinte e quatro horas de felicidade (veja o clipe aqui e saiba mais sobre ele aqui). Com o amor em pauta e em voga, me questiono se as pessoas estão realmente preparadas pra tanto. A cobrança é feita como se todos estivessem dispostos a dar amor, mas o curioso é que ninguém sente que recebe esse amor tão disponível. O que poucos se perguntam é: Queremos mesmo receber amor? Sabemos ser amados? A escola não ensina a amar. A gente aprende na vida e, muitas vezes, o que aprendemos não é amor. E quando o amor chega, não conseguimos identificá-lo. E quando o identificamos, não conseguimos administrá-lo. Amar é também saber ser amado.

 

Assim como muito amor pode sufocar, ter muita paz pode paralisar. Muito sucesso pode arruinar. Muita luz pode ofuscar. Muitos amigos podem exceder o limite do Facebook. Não, péra… Na verdade, sou a favor de ter muitos amigos, contanto que sejam verdadeiros. E ter pouco de tudo isso pode não ser suficiente.

 

Aproveito essa crônica pra desejar, então, o suficiente pra 2015. A quantidade suficiente de amor pra ser feliz. De paz pra tranquilizar, de sucesso pra se orgulhar sem modéstia e de luz pra iluminar nossa quantidade suficiente de verdadeiros amigos.

 


*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

 

**Ilustração: Emmanuele Calisto. Contato: [email protected]

 

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