Múltiplos nascimentos

Quem me conhece há mais tempo sabe que fui fã da cantora Maria Rita. Daquelas fãs de verdade, que vão a vários shows e ficam pra tirar foto no camarim depois. A última loucura que fiz foi sair de São Paulo e ir a Campinas pra assistir a um show que provavelmente já vira umas cinco vezes.

 

Depois dessa revelação “Meu passado me condena”, a questão é que a adolescência tardia passou, mas continuo gostando das músicas da Maria Rita. Em época de Carnaval, vi que ela lançou um clipe de samba. Assisti a quinze segundos do vídeo no Instagram e, nesse pedacinho, ela cantou uma parte de uma música linda, do Arlindo Cruz, Rogê e Arlindo Neto: “Eu não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim” (ouça e veja aqui).

 

Nunca engrossei o coro dos que dizem que a voz da Maria Rita é idêntica à da Elis Regina (talvez por eu não entender nada de música), mas não tenho nenhuma restrição a dizer: se tem uma coisa que ela herdou da mãe foi o talento de escolher o repertório e cantar com uma verdade que faz as palavras tocarem a alma.

 

Após ouvir o trechinho da música, comecei a refletir sobre seu significado e sobre o que somos, genuinamente, sobre as características que não estavam na nossa carga genética óbvia, mas que, de alguma forma, nasceram e despertaram durante nossa vida.

 

Não ter nascido no samba é não ter nascido em uma família carnavalesca, sambista, que ama as rodas de samba, os desfiles, os blocos e os bailes de Carnaval. Eu, definitivamente, não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim, quando passei o Carnaval em Olinda e Recife, em 2011. Pra quem era da ala dos que não curtiam Carnaval, esse nascimento veio pra ficar!

 

Eu também não nasci nos palcos. Fazer curso de teatro sempre foi tão distante pra mim, que só fui perceber que tinha essa vontade quando abriram vagas para um curso no último semestre do Ensino Médio. Como dizem por aí, o bichinho do teatro me picou e me apaixonei, mantendo-me ligada a essa arte até hoje, mesmo que no backstage.

 

Nunca fui estimulada a ter ídolos, entretanto, desde criança, sempre fui fã de alguém. As minhas idolatrias não duram a vida toda, mas influenciaram e continuam influenciando muito do que sou hoje.

 

Surpreendentemente, não nasci ao som de “Eu quero ter um milhão de amigos”, mas meus amigos sempre foram essenciais na minha vida. A habilidade de me conectar com o outro, e manter essa conexão por muito tempo (se depender de mim, pra vida inteira), foi algo que nasceu em mim. Promover encontros e reencontros me faz ser mais eu.

 

Se formos analisar nossas atitudes, perceberemos que muito do que somos vem de onde nascemos, dos exemplos que temos, da família com a qual convivemos e das pessoas que cruzam nosso caminho. Mas podemos ser – na verdade, sempre somos – algo além.

 

Seguir os passos dos nossos ascendentes (que, aqui, nada tem a ver com astrologia) é natural e involuntário. Mas devemos descobrir quem a gente realmente é e deixar esse legado para as próximas gerações, tendo descendentes diretos ou não. Depois de nós nascermos, nossa missão é deixar nascer em nós.

 

 

Ilustração: Emmanuele Calisto. Contato: [email protected]

 

6 comentários para “Múltiplos nascimentos”

  1. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Aaaah, Vi! Amei seu comment!
    Sou filósofa de boteco, isso sim! kkkk! Ou melhor, filósofa de café (combina mais com os lugares que eu vou, ahahha).
    Friends 4ever!

  2. Vívian

    Adorei! Vc é filósofa demais amiga! Cada reflexão! Adorei a parte dos amigos pra sempre!:p Também é bom pensar: o que de bom estamos deixando nascer em nós? Bjao

  3. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Celia, você sempre me emocionando com seus comentários tão profundos!! Obrigada 🙂
    Beijão,

  4. Celia Lutfi

    Adorei o texto, mararavilhoso e inteligente como sempre, mas a sua capacidade de modificar toda esta "genética", encantaaaaa. Bjos

  5. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Aaaah, lindona!! Obrigada, Pati!! :-***

  6. Patricia Cabrini

    Eu ameiiiii Tha! #arrasou

Comentário