Na crista… do Galo da Madrugada

Má, rapá, não é que eu me atrevi a ir ao tal maior bloco do planeta? Pois foi, visse. 14 de fevereiro, oito horas da manhã e eu já de pé – desde as 6h, diga-se de passagi – com uma latinha na mão, camisa de Pernambuco no corpo e duas companheiras de aventura (Manu e Lucélia). E que aventura. Galo da Madrugada é festa abençoada. Sincretismos ou não, parece que as religiões africanas estão todas lá, presentes em ventos e cores para abençoar um desfile de seis quilômetros que atrai uma multidão de milhões, do Centro do Recife até às margens do rio Capibaribe.

 

E o dia tarra era bunito de se vê. Céu mais azul que anil, tanta gente, tanta cor, tanta alegria. O Galo da Madrugada emociona mesmo. Parece coisa de outro mundo, sabe, quando os fogos de artifício anunciam que a bagunça vai começar. Esse ano foram trinta trios e estilo pra todo mundo curtir. Terre axé, Elba Ramalho, rockizin… E as marchinhas que obrigam as lágrimas a cair dozoi. Pois eu digo que chorei. Chorei quando ouvi, “Olinda, quero cantar a ti esta canção. Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar, a brilhar no coração…”. Era o canto lá no trio se molhando de suor e eu cá embaixo me ensopando de lágrimas.

 

E esse ano parece que a emoção foi maior. Tu sabe Ariano Suassuna? Aquele cara com um talento dos bons mesmo, defensor incansável da cultura popular? Pois ele foi um dos homenageados, junto com Eduardo Campos e Reginaldo Rossi, além de Luiz Gonzaga, todos pernambucanos, visse? A lembrança a estas figuras importantes para a história do Nordeste deu-se por uma abertura com fogos e o desfile de bonecos gigantes, dos respectivos personagens, entre os trios. Coisa bunita demais de se vê.

 

O Galo oficial tem 27 metros de altura. Vige maria, que num dá nem pra imaginar uma alegoria deste tamanho, né? Olha aí que dá; dá, sim
O Galo oficial tem 27 metros de altura. Vige maria, que num dá nem pra imaginar uma alegoria deste tamanho, né? Na foto um dos galos da festa

 

 

Dois dos homenageados da festa: Ariano Suassuna (1927-2014), autor, entre outros livros, do clássico "Auto da Compadecida"; e Eduardo Campos (1965-2014), governador de Pernambuco de 2007 a 2014
Dois dos homenageados da festa: Ariano Suassuna (1927-2014), autor, entre outros livros, do clássico “Auto da Compadecida”; e Eduardo Campos (1965-2014), governador de Pernambuco de 2007 a 2014

 

 

Como a gente não fechou camarote, por causa dos preços, que tavam à beira de ganhar da carne de charque de tão salgados, ficamos em uma das ixquinas da rua principal do desfile. Deu pra vê tudinho mermo sem tirar nem pôr nenhum momento. Um trio, o arrepio dos pelo do corpo, um bando de gente dançando atrás. Outro trio, outra história, outra trilha sonora, e mais um bando de gente dançando atrás. É música demais. Teve até uma ou outra repetidinha, mas que vale a pena diante da importância da canção. Até porque ninguém deixa de gritar quando, “Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço”, sai dos trompetes, saxofones e baterias.

 

Assim, desse jeitinho, tudo organizado. Não vi briga, não vi discussão. Vi foi muita emoção e o povo entornando o caldo. Sim, rapá, porque só ficano bebo pra aguentar o pique. É muito calor, muito frevo no pé e muita água na cabeça.

 

Foliões conduziram estandartes com a bandeira do Recife: "Virtus et Fides" (Força e Fé)
Foliões conduziram estandartes com a bandeira do Recife: “Virtus et Fides” (Força e Fé)

 

 

Os bonecos gigantes, tradição com raiz na Europa medieval que se difundiu pelo Carnaval de Pernambuco a partir de 1932
Os bonecos gigantes, tradição com raiz na Europa medieval que se difundiu pelo Carnaval de Pernambuco a partir de 1932

 

 

Agora, a notícia triste… Diante do calô escaldante daquela terra que parece uma panela de pressão prestes a explodir, a gente só viu quatorze trios. Começou a me dar um suador, as vistas ficar tudo escura e uma moleza daquelas que o corpo só pede cama. Se tu acha que vai pro Galo da Madrugada sem uma preparação de uns dois dias, no mínimo, e vai aguentá tudim, tu tá é enganado. Não dá. É um balaio de misturas que o corpo físico não aguenta. Por mais que a alma queira teimar e ficar lá pulando, as pernas esmorecem diante do gigantesco mundo que tem dentro desse bloco.

 

Resultado? Voltamos pra casa e eu durmi por dezesseis horas. Ininterruptas, sem nem sonhar de tão cansada. Quando acordei, parecia que tinha levado uma pisa de cipó de goiaba no corpo inteiro. Duía tudinho. Até o dedo mindinho tava no meio. Mas minha alma tava lavada. Eita felicidade que não cabe na gente. É demais. Tem palavra pra discrevê, não. A coisa é mágica.

 


Fotos: Emmanuele (Manu) Calisto

 

4 comentários para “Na crista… do Galo da Madrugada”

  1. lucelia

    Lindo o galo, adorei, ano que vem estaremos de novo. No camarote, viu rsrsrs …….bjs

  2. Adjael Maracajá

    Não tive a oportunidade de ir ao Galo mas tive o prazer de sentir o calor de Olinda (que deve ser bem parecido). Por essas e outras é que o povo Pernambucano deve ser reconhecido como verdadeiros patriotas da cultura popular. A identidade que se cria naquela gente é memorável e por isso se tornam únicos em meio aos festejos regionais. Brilhante texto, Parabéns Carol!

  3. Emmanuele Calisto

    Emmanuele Calisto

    Coisa linda de se ver! De uma emoção que não se mede e de um amor que não tem tamanho.

  4. Mariana Melo

    Meu Deus que coisa liiiiiinda *—-* Perdi o Galo esse ano, mas em 2016 estarei lá \o/ Coisa mais linda é o carnaval de Recife/Olinda. Adorei o tempo que passei lá, voltarei sempre! #D~~

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