Não é nada pessoal

Não é nada pessoal.

Ou é. É tão pessoal que não tem nada a ver com você.

Todo mundo tem uma teoria. Eu tenho várias, e minha teoria da vez é que nada é pessoal. No melhor sentido da palavra (frase, no caso). Agora, na Olimpíada, temos visto várias reações da arquibancada que incomodam alguns atletas – tanto brasileiros quanto de outros países. Preta Gil e Ludmilla têm sido os principais alvos de agressões verbais via mídias sociais. Diante de casos desse gênero, até mesmo na minha vida pessoal, eu comecei a observar a reação das pessoas em diferentes situações para poder entender a minha própria reação para repetidas situações.

Meu pai, apesar de ser libriano, está longe de ser sinônimo de equilíbrio, mas tem uns ensinamentos bem pertinentes para a vida. Um dia, ele me contou uma historinha da qual eu me lembro de tempos em tempos:

“Era uma vez (acho tão nostálgico esse início de frase) um homem que dava ‘bom-dia’ ao dono da banca de jornal todas as vezes que ia comprar seu exemplar diário. E o dono da banca o tratava com desprezo, arrogância e prepotência. Um dia, o homem foi à banca com um amigo que, ao ver a reação do dono da banca, perguntou:

‘Por que você continua sendo tão simpático e gentil com ele? Pior: por que você não compra jornal em outro lugar?’.

E o amigo respondeu:

‘Porque eu não dou a ninguém o direito de arruinar o meu dia e mudar o meu humor. Eu sou a única pessoa responsável por aceitar ou não que o outro tenha poder sobre mim’”.

Tenho percebido que muito do mau humor do outro está relacionado muito menos com a gente do que com ele próprio. Geralmente, quando a gente ouve histórias como a que escrevi acima, nos colocamos no lugar de quem recebe o insulto e nunca no lugar de quem insulta. Exercitamos a empatia com a vítima, não com o agressor. Exercitar a empatia não é achar que o outro está certo, é apenas compreender e encontrar um caminho para que o outro se compreenda, também.

Quem me segue no Pinterest sabe que eu amo pensamentos. Juntei a história do dono da banca de jornal com a seguinte frase e cheguei à conclusão de que nunca é pessoal, mesmo (ou é, mas explico):

“Todo mundo que a gente encontra na vida está enfrentando uma batalha de que você não sabe nada a respeito. Seja gentil com todo mundo. Sempre!”.

O dono da banca de jornal pode ter inúmeros motivos para tratar o cliente daquele jeito, e o cliente pode ter apenas um para se irritar: aceitar ser atingido pelo mau humor do outro.

Quando alguém trata mal o outro, não é nada pessoal com o outro; é pessoal com ele próprio. A agressão tem muito mais a ver com o que ele está sentindo do que com que o outro faz. Alguém pode, sim, fazer algo que não nos agrade, mas não nos agrada por quê? Por qual situação nós passamos ou estamos passando para que a outra pessoa tenha conseguido nos ofender tanto?

Esses dias, assisti a um vídeo do historiador Leandro Karnal, que fez uma análise bem especial sobre Hamlet, personagem de Shakespeare. Nesse vídeo, ele dizia que nós só nos ofendemos quando não nos conhecemos. Quando outra pessoa tenta nos insultar, há duas opções: ou ela está dizendo a verdade, ou está mentindo. Se estiver dizendo a verdade, não tem por que ficarmos com raiva, afinal, não temos muito o que fazer, certo? Se estiver mentindo, não tem por que nos sentirmos atingidos pelo falso testemunho dela.

Se você incomoda alguém e não sabe o motivo, provavelmente você desperta naquela pessoa algum sentimento que nada tem a ver com o que você fez, mas sim com algum trauma pelo qual talvez ela nem saiba que passou. Quando você sente que alguém te incomoda, faça uma autoanálise: “Por que eu estou irritada com essa situação? Por que isso me desperta esse sentimento?”. Você vai descobrir que é muito mais um processo de mudança interna do que externa.

Não somos o centro do mundo. As pessoas não esbarram na gente na rua para nos irritar nem nos fecham no trânsito porque elas não gostam da gente. Elas estão muito mais preocupadas com os problemas delas do que em nos fazer sofrer. Se conseguirmos não ficar irritados com a falta de respeito do outro, já vai ser um grande avanço para uma convivência pacífica. Um primeiro movimento para isso talvez seja tentarmos ficar menos preocupados com os nossos problemas, colocando em prática a empatia e a gentileza.

Créditos da imagem: chademente.com

2 comentários para “Não é nada pessoal”

  1. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Ownnn! Obrigada, Pati! Bom demais ouvir (ler) isso
    :-*

  2. Patricia Dib

    Lindo , amiga ! E além da beleza do texto , sei o quanto você pratica e sente sobre o que reflete . Parabéns !!!

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