“Não siga o seu coração!”

A caixa de e-mails. Em uma das mensagens, a frase, “Resultado – processo seletivo para Revisor”, vinda de um recrutador.

Os olhos brilham, algumas palpitações e pequenas projeções são feitas: seis meses em um job novo, revisando textos, memorandos… Tudo bem, trabalho temporário, cobrir licença-maternidade, mas maravilha – quem sabe não prolongam? “Será, será, que será? Que será, que será?”, como diria o poeta Caetano Veloso.

Comando o cursor do mouse; um tremelique nos dedos faz com que o e-mail pule na tela, de supetão. Eis, aos olhos, a mensagem:

“Prezado(a) Candidato(a),

Agradecemos o interesse em nosso processo seletivo. Nos sentimos lisonjeados em querer fazer parte de nossa equipe!

Nós recebemos mais de 400 currículos de interessados, escolhemos 4 para entrevistas e dinâmicas. Desses, apenas 1 foi contratado.

Mas não desanime…”

Desculpe, otimismo, a sombra do desânimo pairava aos olhos. Muitas vezes nos curvamos de certas adversidades. Mas acontece. Quem sabe em uma próxima oportunidade? Quem sabe seja melhor mais qualificações? Quem sabe, quem sabe, quem sabe?

O e-mail tinha chegado justo no dia em que tropecei noutra tristeza, mais “leve”, diria. Participei de um concurso de fotografia sobre transporte público e fui a uma estação do metrô para fazer a imagem, fazendo referência à importância da faixa amarela de segurança.

Inscrevi contente, mas sem muitas projeções. Fuçando na internet, dias depois, encontrei a galeria de fotos dos selecionados. Barra de rolagem para cima, barra de rolagem para baixo e nada.

Pois é, não fui selecionada.

“Mas não desanime”, era o que gritava em meus pensamentos. Mas acontece. Quem sabe em uma próxima oportunidade? Quem sabe não entendi bem o regulamento lido e a foto não condizia com o concurso? Quem sabe, quem sabe, quem sabe?

Postei a imagem no Twitter, sem muitas pretensões. Recebi alguns retweets, curtidas e uma frase, de um conhecido, chamou-me a atenção: “Legenda da foto: não siga o seu coração”.

Eis-me espantando a bruma da melancolia, rindo demais à frente do notebook. Quantas vezes sigo o coração e me estrepo? Quantas outras sigo-o e, porventura, me dou bem?

“Não sei.” Eis a frase da vida.

Sem muitas expectativas me inscrevo em seletivas. Sem muitas pretensões me lanço no mundo. Nesse vasto universo de zeros e uns, só sou mais uma em busca de espaço no espaço cibernético e real.

Que eu seja descoberta. Quem sabe…

“Não siga o seu coração”, é a legenda da foto que agora ilustra este texto.

“Prossiga”, é o que berra esse velho amigo, ora cúmplice, ora traiçoeiro, que bate de supetão dentro do peito.

 

Foto: Keli Vasconcelos

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