“Naonde cê vai?”

No carro estacionado, um jovem digitava em seu celular. A conversa parecia boa, pois um sorriso no canto dos lábios brotava enquanto a luz azul refletia nos olhos castanhos. De repente, um senhor tentou parar o seu veículo logo atrás, em um espaço onde só caberia um Fusca ou outro carro mais compacto. E não era o caso dele, uma Variant 78.

Só se ouviu o solavanco e o pescoço do moço digitador sacolejou. O senhor, por sua vez, já estava atravessando a rua sem olhar para o leve amassado no carro importado do outro, quando os dois começaram a discutir. Obviamente, a rua começou a se encher, mas eu não olhei para trás, estava apressada para um compromisso e, até chegar à Estação de São Miguel Paulista, seriam consumidos uns vinte minutos.

Enquanto apressava o passo, cruzei com o guardador de carros daquela rua. Já o cumprimentara outras vezes, é um trajeto que faço até com certa frequência, por causa das idas a médicos e fisioterapia. Um cordial “Bom-dia” é sempre dito, mas, desta vez, por razão do princípio de briga, balancei a cabeça, em negação, e exclamei um “Que doideira” para o jovem:

“Naonde cê vai?”, foi a devolutiva.

Naquele instante, sinceramente, fiquei sem reação, sem saber o que responder. Afinal, jamais disse-lhe uma palavra a mais além de cumprimentos, então, sem pensar muito, apertei o passo.

O homem, porém, também se apressou:

“Naonde cê tá trabalhano? Em que loja cê tá agora pra eu passar lá?”, foi a insistência.

Aquela situação me deixou assombrada. Pior, a discussão tinha passado entre os dois homens e a aglomeração dissipou-se. A sensação de que algo pior poderia acontecer assoprara nos ossos:

“Não estou trabalhando em lugar nenhum aqui, moço. Acho que está se confundindo”, disse trêmula, mas mantendo-me firme.

“Não trabalha aqui, não? Mas vejo você todo dia, quase…”

Não o esperei terminar a frase. Outros dois homens, à minha frente, tinham desacelerado o passo e observavam se eu estava bem. Dei um sorriso sem graça e, novamente, não olhei para trás.

No caminho, mais calma, me peguei novamente introspectiva. Sempre fui meio “bicho do mato”, desconfiada, mas mantendo um sorriso para o outro. Faço sempre o possível para cumprimentar a todos, especialmente nos tempos em que vivemos, tão ríspidos infelizmente.

“Vai ver que ele se confundiu mesmo”, respondi dentro do meu coração.

Afinal, é preciso prudência, mas também não perder a esperança no “bicho-homem”.

 

Crédito da imagem: Keli Vasconcelos

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