Nós

 

 

Era véspera do Dia dos Pais e o shopping em Itaquera, extremo leste da cidade de São Paulo, regurgitava de famílias em busca de presentear os seus queridos. Foi uma epopeia achar lugar para sentar naquele almoço de sábado. Assim que o encontrei, logo tratei de começar a garfar alguns pedaços de carne, arroz e macarrão embebido em molho shoyu.

 

Comecei a reparar nos olhares das pessoas, ou melhor, nos casais. Hoje, na era dos smartphones, muitos preferem a distração das telinhas às conversas ao vivo e perdem alguns momentos que não voltam atrás.

 

Não tem barra de rolagem, a vida, penso eu.

 

Na mesa à minha frente havia dois namorados, deviam ter uns vinte anos. Eles não estavam com seus celulares e a jovem demonstrava raiva, com os braços cruzados, um certo biquinho nos lábios, pés tremelicando no chão, formando um pequeno terremoto na mesa com lanches de fast-food norte-americano. Já o moço estava entretido com o copo de refrigerante, brincando com a tampa e o canudo, olhando para o nada. Pareciam surdos em meio ao zum-zum-zum da praça de alimentação. E cegos por não vislumbrar um ao outro.

 

Pois bem, fiz a refeição, dirigi-me à saída do centro de compras e a consequente ida ao ponto de ônibus. A van estava lotada e os passageiros reclamavam da demora das conduções e daí o acúmulo de pessoas dentro delas.

 

A viagem seguia e eu, em pé, me abstraía vendo as retas e curvas da avenida Pires do Rio. Nisso, chegou uma senhora com crisântemos – ou crisantêmos, como diriam os mais velhos na Bahia, terra de minha mãe – nas mãos, acompanhada de um adolescente e outra mulher. Consegui um assento para aquela passageira e seu vaso e ficamos conversando sobre o trânsito.

 

Nesse interim, eles desceram numa esquina e fiquei mais perto da porta de saída. Já chegando próximo do ponto onde desceria, recomecei o meu distrair, com os olhos fixados na janela da van, pensando no nada e para o nada.

 

O tráfego mantinha-se lento e o veículo parou em uma pracinha. No banco acomodava-se um casal de meia-idade, bem agasalhado, com roupas cinzentas e puídas. Dividia suas marmitas: um com macarrão parafuso; outra com arroz e pedaços de carne vermelha.

 

Ela falava e comia ao mesmo tempo, grudando arroz naqueles lábios secos, áridos, que havia muito tempo não sabiam o que era brilho labial, manteiga de cacau, batom, talvez. O homem, delicadamente, passou o dedo indicador direito neles, retirando os pedacinhos intrusos do grão daquela boca que proferia palavras desconexas. Verbos esses que, para ele, soavam como sonho, devaneio.

 

Nisso passou uma moça, prestes a terminar um cigarro, e foi abordada pela mulher, que pediu a bituca. Agradecida, a mulher parda, por volta de quarenta anos, fumara aquele pedacinho de nicotina com a mesma desenvoltura de um charuto.

 

O trânsito fluiu, desci no ponto e segui meu caminho, refletindo sobre aqueles casais, o do shopping e o da praça. Nos nós que o destino entrelaça, nos nós que tentamos atar. Nos nós que desatam e muitas vezes não sabemos o rumo a tomar.

 

E para ser nós é preciso conjugar o nó que é a vida.

 

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

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