O buraco do progresso

As cercanias da rua Capri, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, abrigam gente de já um outro tempo, do tempo de uma outra Pinheiros, mais alegre, mais festiva, menos afoita também.
A maioria dos moradores das proximidades da Capri encontra-se hoje na casa dos sessenta, dos setenta, dos oitenta anos de idade. Moram ali há quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta anos. Gente trabalhadora, por excelência. Muitos deles japoneses, os isseis, ou nisseis (filhos), ou sanseis (netos), ou yonseis (bisnetos). Gente que ajudou a construir a CAC (Cooperativa Agrícola de Cotia), que foi a maior cooperativa agrícola da América Latina, hoje falida. Uma das sedes principais da ilustre cooperativa, modelo de cooperativismo no Brasil e no mundo, era ali, no Largo de Pinheiros, onde muitos descendentes foram ficando, fixando residência.
Os pais de Chou Seto, de 82 anos, morador do bairro desde 1954, quando se casou, foram um dos fundadores da CAC. Ela nasceu em 1927, como resultado do trabalho iniciado por imigrantes japoneses na região de Cotia, na Grande São Paulo, quatorze anos antes, em 1913. Eram originalmente batateiros, com muito orgulho: Cooperativa dos Produtores de Batata de Cotia. Seu Seto foi um dos lavradores, ainda menino, até os quatorze anos de idade.
Traziam as batatas em carros de boi até Pinheiros, via Estrada São Paulo-Sorocaba. Era uma tarefa longa e dura, que reunia cinco ou seis homens taludos, para o caso de o carro atolar pelos caminhos de terra ou de barro. A saga da batata. E, quando chegavam ao Largo de Pinheiros, ou Largo da Batata, como também é conhecido, tinham de enfrentar uma difícil negociação com os compradores, que se aproveitavam da dificuldade de transporte e da necessidade de venda e sempre pagavam pouco. Daí a CAC ter criado seu próprio ponto-de-venda no Largo, tornando-se independente na distribuição de seus produtos hortifrutigranjeiros.
Essa gente abnegada que fez a CAC vaga hoje pelas ruas de Pinheiros de carapinha branca, pele encarquilhada, corpos recurvos. Parece deslocada no tempo. Esses japoneses e seus descendentes, juntamente com a gente portuguesa e seus descendentes, formam uma classe média sem bens, sem outro luxo que o de ter criado bem os filhos e o de ter conseguido comprar a casa própria – casas, muitas, chamadas de operárias pelo estilo da construção.
Pinheiros é, há tempos, um bairro triste. E a obra do Metrô era a promessa de retorno de uma alegria perdida. Injetara ânimo novo em seus moradores, novos ou velhos, e nos negociantes imobiliários da região, ímpeto que fizera subir o preço dos aluguéis e dos imóveis à venda. Falava-se da possibilidade concreta de revalorização do bairro, da revitalização de suas ruas esburacadas, empestadas e nauseabundas, de suas paredes pálidas e desbotadas e descascadas, de muros eternamente pichados e parcialmente destruídos. O fartum começava a trescalar a jasmim. E agora?
Uma senhora muito idosa, muito magra, carapinha branca, pele tinta de marrom, olha para a rua, para o movimento, entre uma e outra rajada de fumaça escura de ônibus, da zoeira de motos. Parece aturdida. O que será que vê? Que lugar? Quarenta, cinqüenta, sessenta anos morando ali. O que restou daquele outro lugar, daquela outra Pinheiros?
O ônibus que vem agora guinchando, serpeando, coleando por ruas estreitas, pequenas, de um tempo que não exigia nem queria nada monumental, chacoalha tudo por onde passa, a casa da senhora trepida, as janelas de vidro tilintam, seu cabelo fino e rarefeito se despenteia. Ela se apóia no portão pequeno, de ferro carcomido pelo tempo, resiste.
Outros, muitos tempos
Pinheiros comporta muitos tempos. E de que progresso falam? De que avanço? O bairro ainda guarda nas entranhas as lições aprendidas e ainda, felizmente, não abandonadas ou esquecidas. Tem gente que faz questão de que certos modos, certos hábitos, certos valores continuem. Pinheiros é ainda gentil, pela atitude desinteressada e solidária dos mais velhos, esses que enfrentam os efeitos do que os homens de hoje, os engravatados de hoje, os tecnólogos de hoje chamam de modernidade.
Seu Seto é meu vizinho, sou também um morador de Pinheiros, um ilustre desconhecido das proximidades da rua Capri. E acredito que deva ser também alguém ou algo obsoleto, a desafiar as ruas ora sem calçadas ora de calçadas muito estreitas, me enfiando de permeio no asfalto, com meu cachorro Branco na mão, os ônibus enfurecidos, e agora um Metrô que ameaça. Os helicópteros planam afanada, ruidosamente no ar.
Seu Seto e sua senhora, dona Maria de Lourdes, uma mulher muito simpática e tímida também, descendente de japoneses, são sempre tão solícitos, que me fizeram lembrar do benefício da boa vizinhança. Habituara-me ao contato com os vizinhos apenas na hora da reclamação. Seu Seto e senhora me ofereceram luz, improvisando uma extensão por cima do muro, quando de luz precisei. Segurança e amizade, quando do bom destino duvidei. E sei que posso contar, ainda que nunca mais precise. Mas sei que estão ali, e isso me faz bem. Considero-os meus avós, os avós japoneses que nunca tive, banzai!
Soa a campainha de casa, uma casa térrea antiga, avoenga, que me abriga e consola, estimula e alegra. Alguém que não conheço está ao portão. O homem, maltrapilho, macilento, pálido ainda que sujo, de aspecto doentio, faz pantomimas, quando assomo ao portão. Circunda as mãos pelo ventre magro, está com fome, pede comida. Vou até a cozinha, faço dois sanduíches do salame que restou da recepção da noite anterior. Emborco o leite num copo de plástico. Entrego ao homem sem abrir o portão de ferro, peço que avance até onde estou. Ele agradece com os olhos tristes e parte, vacilante, tremelicoso. Não é a primeira vez. A decadência de um bairro, de uma cidade se revela ainda mais dramaticamente nos homens que a habitam? Seu Seto também se indaga: “Vai saber se isso (a decadência) não é um processo de São Paulo como um todo?”. Sinto um calafrio, me entristeço. Será a Sampa Crazy City, como diz o repórter fotográfico Marcelo Min, para descrever seu espanto diante da cidade absurda? Ou a Cidade Triste, como a São Paulo a que se refere o repórter Wellington Ramalhoso? Estamos todos aturdidos, deprimidos, de moral baixa, baixa auto-estima, quase no buraco.
Acelgas no varal
Seu Seto ainda cultiva um antigo hábito: o de pendurar folhas de acelga ao relento, no varal, para secar. É curioso, motivo de risos mal contidos de início. Contudo hábito tradicional de locais onde o inverno longo e rigoroso, como o do Japão, deixa a gente sem verdura por longos meses. Com as acelgas desidratadas, Seu Seto prepara uma conserva que pode saciar sua fome de verdura por muitos meses. Junta sal, um pouco de açúcar, vinagre. “O açúcar é que dá o gosto; não é o sal.” Deve ficar bom. Não precisaria disso vivendo no Brasil. “Tem coisa que a gente continua ainda que não precise.”
O Metrô feriu de morte, revelando negligência, imperícia. Os cínicos dirão se tratar do pedágio que o progresso cobra. Será mesmo assim? Que preço então estamos dispostos a pagar, e apagar principalmente da memória? O Metrô é mais do que bem-vindo, é necessário, e chega com muito atraso.
Mas tratamos de gente, de gente que reuniu alfaias, recordações, filhos, netos, bisnetos ali onde o progresso destrói e atropela tudo e todos agora, inapelavelmente. Somos reféns não do progresso, que ele venha; somos reféns da ganância e da irresponsabilidade.
O desafio que se apresenta é conciliar o avanço com a preservação de algo que não é passado, é presente à espera de quem lhe pergunte “Como foi?”, para sabermos para onde vamos. Não precisamos demolir tudo e começar sempre do zero.
Seu Seto, Dona Lourdes e os outros antigos moradores da rua Pascoal Bianco foram os responsáveis pela obra que pôs o asfalto na porta de casa. Com dinheiro do próprio bolso, não da prefeitura. Usavam-se, antigamente, galochas para passar ali, devido ao atoleiro. Era uma dificuldade. Entende-se, então, o apego. A filha de Seu Seto já tentou muitas vezes fazer com que o pai saísse da casa ou a reformasse, mas não conseguiu convencê-lo. “O apartamento (que a filha ofereceu) tinha até piscina, mas gosto dessa casa velha. A gente não se anima. Esse passo que a gente não dá”. Mas Seu Seto faz uma autocrítica também: “Os mais novos dizem: enquanto esses velhos não morrerem, Pinheiros não irá para a frente. Em parte, eles têm razão. Os velhos deviam pensar também na geração que vem depois”. E conclui: “Supervalorizar as coisas, não”.

Caem os primeiros pingos de chuva. Seu Seto se mobiliza e muda as folhas de acelga de lugar, para o varal estirado embaixo do coberto do quintal.

4 comentários para “O buraco do progresso”

  1. marlene

    buraco do progresso
    Como disse a Dora, não há o que dizer. O texto é maravilhoso. Parabéns.

    Marlene

  2. Guilherme

    Mais que agradecido
    Só tenho muito a agradecer a vocês pelo apoio sempre carinhoso. É ainda o começo, espero progredir muito ainda. Vou me esforçar. Obrigado de coração.

  3. Dora

    O buraco do progresso
    O que dizer?
    Trata-se de um texto de grande sensibilidade. Lindo. Dá vontade de chorar!
    Você ainda será reconhecido como um grande escritor. O tempo dirá!

    Dora

  4. Juvenal Azevedo

    O buraco do progresso
    Mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez o Guilherme Azevedo bota as entranhas no texto, jogando-as para o distinto público, como só sabem e têm a coragem de fazer os grandes escritores e jornalistas.

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