O canto dos “Caranguejos”

 

Argiloso Henfil,


Ao som de “Maracatu Atômico”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, mas na voz de Chico Science e sua “Nação Zumbi” – a gente vai pondo as perninhas de fora, se arrastando pelo asfalto das Avenidas Paulistas, pelas praias e pelos gramados dos Maracanãs.

 

O bloco dos caranguejos que seguem meio de lado, meio de banda sobre a terra (às vezes úmida – às vezes seca demais), desde os manguezais nordestinos até os pampas sulistas – desde as senzalas cariocas até os guetos paulistanos.

 

O âncora do telejornal caminha pelas notícias de galocha – não quer molhar os pés – enquanto alguns catadores de caranguejos em Brasília estão sempre com as mãos sujas de lama.

 

As senzalas são outras, mas os crustáceos são os mesmos – esquecidos em alguma escola feita de sapê e barro no interior do Maranhão. Estamos vivos, apesar dos sapos barbudos e imberbes (quantos sapos já engolimos), do atoleiro da corrupção e desta gente parlamentar que se dedica totalmente ao próximo, ou melhor, ao dinheiro do próximo.

 

Soltamos a voz no Carnaval e no grito de gol – soltamos o som enroscado na garganta nas passeatas contemporâneas e com a corda no pescoço em tempos de Herzog e do “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil.

 

A mordaça hoje é outra – existe uma necessidade midiática de dizer por nós – como se a gente não tivesse nossa própria voz – como se a gente não fosse capaz de dizer sobre nossa fome, nossa doença, nossa cultura, nossa poesia, nossa dor.

 

Temos RG, CPF e nome de batismo – temos até uma vaga lembrança do que é ser cidadão de verdade. O aluguel em dia, quando há morada, as contas de energia, água e em breve as contas pelos raios de sol.

 

Como dizer aos pequenos caranguejos nas escolas públicas que o paradigma não é o traficante, nem o homem do colarinho branco? Como convencê-los de que a educação caminha bem, se existe a Fundação Casa em São Paulo?

 

Como falar de honestidade, se um dos ex-secretários estaduais da Educação de São Paulo é suspeito de desviar verba pública da própria educação, valendo-se do cargo ocupado?

 

Sem respostas… Sigamos então meio de lado, meio de banda – sempre atentos, quem sabe eretos em passeatas pelas Avenidas Paulistas, pelas praias ou pelos gramados dos Maracanãs.

 

O Brasil é um manguezal.

 

Jornalirista!

 


Um comentário para “O canto dos “Caranguejos””

  1. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    Sobre Caranguejos e Manguezais
    Sua reflexão é séria e preocupante.
    Coitado do HENFIL..Deixa Ele descansar em paz…

    Temos solução SIM!
    Nada que um tamborim bem ritmado..um sambinha no pé , um bom rebolado e um golaço de plavca não nos redima..

    Sorria,meu caro!Sorria!Parabéns pelo texto!

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