O caso GC (Tudo em nome da fé?)

 

 

 

Brasileiríssimo Henfil,

 

 

Como canta Ivan Lins: “Aqui é o meu país”. Lugar de homens de bem – berço das mais diversas crenças, da tolerância religiosa extremada, do encontro de imagens “Aparecidas” nas águas doces de rio paulista.

 

Em terras brasileiras, toda a força do candomblé e das religiões africanas, trazidas em navios negreiros aos litorais – todo esplendor de uma cultura que veio ao som das chibatas ensinar a capoeira, o maculelê e outras tantas formas de celebrar a liberdade.

 

Há homens que sustentam símbolos religiosos no pescoço – citam o divino a todo momento e dizem fazer tudo em nome da fé, mas fazem pelo vil metal. Será o caso do GC – que diz ter escrito dezenas de livros (inclusive para crianças) sobre ética, amor e educação?

 

O GC foi secretário estadual da Educação de São Paulo entre 2002 e 2006 (já no governo Geraldo Alckmin, do PSDB) e pouco ou nada fez pelo ensino público – talvez porque seu olhar sempre esteve atento ao privado – talvez porque lhe falte a formação humanística de Paulo Freire – embora cite (sem nenhum pudor) o nome deste importante educador brasileiro em suas palestras.

 

Como dizer, em uma sala de aula, que o ex-secretário da Educação é suspeito de desviar o dinheiro público? Como dizer que o GC, como denúncias indicam, pode ter se dedicado mais ao turismo em causa própria que à educação? Como apresentar o jornal aos alunos e ler, em letras garrafais, o nome de quem deveria dar o exemplo, de quem deveria ser paradigma mas abre o caderno das notícias policiais?

 

Um homem é mais do que um corte de cabelo e um terno de muitos reais – antes de mais nada existe o caráter, o berço doméstico e infelizmente o berço político. Quem troca um pelo outro – quem esquece um pelo outro está fadado ao desvio de conduta – ao achaque, à troca de interesses, ao enriquecimento duvidoso e cedo ou tarde será esquecido pelos eleitores, pelos leitores e até mesmo pelos “companheiros” do partido.

 

Quantas vezes um homem pode negar seus semelhantes antes que o galo cante? Que espécie de homem cita bairros como o Capão Redondo como se tivesse algum apego ao lugar e aos que lá sobrevivem?

 

A impressão que tenho é a de que uma cobertura em Higienópolis deve ter lá os seus encantos – quem sabe uma banheira de hidromassagem, uma sala para escrever mais uma dezena de livros no computador de última geração – um cofre para guardar uns “trocados” e uma vista privilegiadíssima.

 

Também penso que deve ser um ambiente solitário porque ninguém aparece com um tamborim, um surdo e um cavaco. Ninguém traz cerveja e picanha para fazer um churrasco – ninguém troca um sorriso e um abraço se não tiver uma contrapartida.

 

Uma mala estranha aqui e outra acolá e nenhum dinheiro conquistado com o suor do trabalho – uns trocados para fazer uma “vaquinha” para comprar mais carne e bebida ou doados ao vizinho que precisa comprar um remédio fora do orçamento.

 

Um desvio de verba aqui e outro acolá e nenhum mutirão para construir uma morada decente para o vizinho – nenhum amigo sincero para dizer não aos pecados financeiros. Acho que o GC foi mais feliz como professor de Filosofia (nas escolas públicas) – o salário de deputado é maior, é verdade, mas nem só de dinheiro viverá o homem – principalmente se o dinheiro não for seu.

 

Um homem é mais do que um corte de cabelo, um terno fino e um título de Doutor – um homem é o resultado dos seus atos e sua envergadura será medida pela sua generosidade – sua capacidade de dividir tudo que aprendeu – aquele que se põe na condição de mestre deve ser infinitamente mais humilde que o aprendiz e não o contrário.

 

Quem dissemina a ignorância e se vale de cargos públicos para tirar proveito individual é tão ou mais cruel que qualquer ditador. A única diferença é que alguns se escondem atrás da religião e do ar de bom-moço para cometer suas silenciosas atrocidades.

 

Estou farto de ouvir que tudo é assim mesmo – que se outros estivessem à frente de um cargo público fariam o mesmo. Há milhões de pessoas que fariam diferente e não enviariam (ou desviariam) dinheiro público aos paraísos fiscais no exterior.

 

A História e a Sociologia deveriam se ocupar dos homens simples, daqueles que mal sabem assinar o nome, mas que, por uma questão de dignidade, tem um nome a zelar. Homens que pagam suas contas em algumas tantas prestações e cumprem com suas obrigações.

 

O GC poderia ensinar Filosofia aos seus pares – aos homens apartados por completo de alguns valores. Quem sabe o GC consiga ensiná-los que nenhum governante está acima das pessoas que governa. A retórica ou a arte de discursar em palanques não semeia, não colhe e não faz farta nenhuma mesa.

 

É preciso que se tenha respeito (não da boca para fora) em relação ao trabalho de quem ocupa os campos, as fábricas, os hospitais, os teatros, as galerias, as escolas e até mesmo os gabinetes das Câmaras, Assembleias e Senado.

 

Um homem é mais do que um corte de cabelo, um terno fino e um título de Doutor – a essência de um homem é ser menino.


*Sílvio Valentin Liorbano é escritor e professor de Português da rede pública municipal de São Paulo.

 

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