O fio invisível da loucura

“De médico e de  louco, todo mundo tem um pouco”, já dizia Machado de Assis, em seu livro “O Alienista”, o que virou dito popular..

Mas afinal o que é a Loucura?

Distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir? Sentimento ou sensação que foge ao controle da razão?

Segundo o filósofo  Foucault “além de figura histórica, é também e fundamentalmente uma experiência originária, essencial, que a razão, ao invés de descobrir, encobriu, mascarou, dominou, embora não a tenha destruído totalmente, por ela ter-se mostrado perigosa”.

Na Antiguidade, a loucura era considerada  uma manifestação divina. O “ataque epilético”, intitulado a doença sagrada, significava maus presságios quando ocorria durante os comícios.

Na Idade Média os loucos eram afastados do convívio social, colocados em barcos que os levavam  para longe.

Antes do século XX,Sigmund Freud e Josef Breur reconheceram que os sintomas neuróticos estão relacionados com alguma experiência consciente (histeria,certos tipos de dor e de comportamento anormal)e têm, na verdade, uma significação simbólica. São como os sonhos, um modo de expressão do nosso inconsciente e  igualmente simbólicos.

Por exemplo, alguém que tem espasmos ao engolir… remete a alguma situação que “não consegue engolir”.

Ou tem acessos de asma numa determinada casa, porque “não consegue respirar a atmosfera” daquela casa.

Outra tem uma estranha paralisia nas pernas, e não pode andar, ou seja, “isto não pode continuar assim”.

Carl Gustav Jung reafirma que a consciência é uma aquisição muito recente da natureza e está num estágio experimental. É frágil, sujeita a ameaças de perigos específicos e facilmente danificável.

Como os antropólogos já observaram, um dos acidentes mentais mais comuns entre os povos primitivos é o que eles chamam de “perda da alma, ou seja, uma ruptura,ou mais tecnicamente uma dissociação da consciência.”

Mas enfim, vocês devem estar pensando, afinal de contas, por  que eu, que não sou psicóloga, psicanalista ou psiquiatra estou adentrando estes campos psíquicos, no momento?!

Tranquilizem-se! Tudo isto é apenas para ilustrar meus sentimentos contrários em relação ao fabuloso filme Loucas de Alegria, do ator, roteirista e diretor italiano Paolo Virzì (52 anos), premiado por  La Bella Vita em competições como a Grava d’Oro, o Nastro d’Argento e o David di Donatello.

shellah_loucas-de-alegria

Por que contrários? Bem, você vai ao cinema, tentando relaxar e escolhe uma comédia.

Daí se depara com um filme de extrema profundidade que retrata uma dupla fantástica:  Beatrice (Valeria Bruni Tedeschi) soberba, rica  e falaz e Donatella (Micaela Ramazzotti)   introvertida, simples e avessa a conversas.

A escolha das atrizes e suas características “anormais” apontadas pelos consultores especializados para compor as personagens é exuberante.

Embora, num insight, passe pela cabeça Thelma (Geena Davis) e Louise (Susan Sarandon), a trama de Ridley Scott (1991), toma outros caminhos:

Paolo Virzi aborda o isolamento em uma vila de repouso alternativa, mais humanizada, proposta moderna de socialização de pacientes que atingiram o estágio de “fuga da realidade” que as rotula  como “loucas”.

E a grandiosidade do filme está  em nos provocar risos e choros, quase imediatos, num intento de, ao nos deixarmos levar pelas extravagâncias aparentemente “inocentes” das duas, termos que enfrentar nossos próprios limites e dar de cara com “o louco” que habita em todos nós.

Absolvemos as duas, e saímos com um gosto agridoce na boca quando elas retornam à Villa Biondi, após suas falcatruas e desvarios.

E este sabor permanece em nosso palato, em nossas mentes, corações e vísceras. E, nos faz contemplar “tantas personagens insanas” semelhantes, em nosso convívio diário, por aí soltas impunemente, prontas a nos dar o bote, e simplesmente às ignoramos por conta de nossa própria esquizofrenia “não manifesta”.

Não por acaso, semanas antes havia assistido à peça Colônia, baseada no livro O Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, que denuncia o genocídio acontecido no manicômio na cidade de Barbacena, Minas Gerais, de pelo menos 60 mil pessoas entre 1903 e 1980.

shellah_colonia-a-peca

Criado pelo governo estadual, em 1903, para oferecer “assistência aos alienados de Minas”, até então atendidos nos porões da Santa Casa, o Hospital Colônia tinha, inicialmente, capacidade para 200 leitos, mas atingiu a marca de cinco mil pacientes em 1961, transformando-se em cenário  de  massacre. A instituição, alocada como um dos maiores hospícios do país, inchou na década de 30. Mas, foi durante a ditadura militar que os juramentos médicos,foram totalmente esquecidos.

Claro que fiz associações. A proposta humanizada, numa vila com profissionais dedicados e interessados na compaixão pela natureza humana e suas fragilidades. E, da outra, de um extermínio bestial que vai ecoar para sempre em nossas consciências.

shellah_holocausto-livro

E me pergunto: quantas vezes alimentei em mim mesma Donatellas e Beatrices, mulheres perdidas, uma com depressão profunda, o mal do século, e outra, com devaneios oníricos de grandeza.

E, aturdida e triste, identifico este fio invisível, cuja ultrapassagem pode nos tornar, para sempre, incompatíveis com o status quo.

E, que por mais que nossas pequenas vidas cotidianas sejam esmagadas, devemos insistir, heroicamente, em limpar a lama tantas vezes quantas forem necessárias, para promover a  insurreição contra a efervescência mórbida da loucura que assola a todos nós.

O acaso, com seu humor perverso, me atirou no cinema, e provocou em mim ,uma revolta urgente:

O que desejo é a loucura? O que posso é  “sem graça”?

Sou mais uma sobrevivente no deserto de honras, hipocrisias e mesuras?

E, num átimo, tento arrancar literatura do desastre de mim mesma.

 

Imagem filme: Divulgação
Imagem peça: Divulgação
Imagem livro: Divulgação
Imagem topo: psicologia-ro.blogspot.com.br

Comentário