O frango, eu e David Bowie

 

Bem, este não é mais um relato cheio de dramas e ápices emocionantes. Não, não mesmo. É apenas a história de uma apaixonada por gastronomia que vai tentar vencer seu maior desafio: o frango.

 

Era uma vez uma jovem jornalista que adorava enveredar pelos campos da boa culinária. A tal jovem? Eu mesma, com todos os meus desjeitos e tentativas.

 

Adoro misturar, experimentar novas combinações e ingredientes e tudo o mais que os grandes cozinheiros nos ensinam por aí. Às vezes dá certo, às vezes não dá.

 

O “não dá” sempre ia para o frango. Ô, carnezinha difícil de preparar. Para falar a verdade, não sou muito fã dele. Prefiro cozinhar carne de boi ou de peixe e aí, sim, estou no meu campo de domínio e parece que tudo, absolutamente tudo, dá certo e fica primoroso. Mas o frango…

 

O frango me irrita. Todas aquelas peles, gosmas e babas, oriundas dos complementos para ficarem no ponto de abate mais rápido, o fartum característico daquele corpo inerte… Enfim, o frango me enoja. Mas, às vezes, é preciso enfrentar os problemas, não é mesmo?

 

Eu vinha muito irritada porque minhas duas mais recentes tentativas de preparar frango tinham sido um retumbante fracasso. Na primeira, o sabor ficou com sabor de coisa nenhuma e, na segunda, exagerei no limão (uso limão para tirar o odor). Ficou tudo horrível.

 

Pensei em parar de cozinhar: “Se não sou capaz de fazer tudo, não posso ser capaz de fazer nada”, sentenciei. Mas, como não sou mulher de desistir, acordei um belo domingo com a firme decisão de enfrentar meu maior desafio.

 

Minha mente só pensava nele, em como deixá-lo perfeito. Seria uma luta de vida ou morte. Para a trilha sonora da batalha? David Bowie, com sua capacidade de reinventar a si mesmo, que era ali o meu caso. Acompanhamento do prato? Purê de leite, farofa de bacon e arroz branco.

 

Enquanto a música tocava, ditando o ritmo, eu o tratava com dedicação. Escaldei-o, limpei-o de tudo, sem deixar absolutamente nada. Preparei uma bela cama com cebola, ervas e azeite. Fiz cortes em seu peito, para nele penetrar todo o amor, todo o tempero, deixei-os conhecer seu novo lar e coloquei tudo no forno.

 

Essa seria a minha última tentativa de me relacionar com o frango, estava decidido. Se, ao fim, EU não o achasse absolutamente MARAVILHOSO, nunca mais cozinharia. Enquanto ia nisso pensando, com algum receio, ele foi assando e dele desprendendo um aroma (sim, era bom), que lentamente penetrou o ambiente e tomou toda a cozinha.

 

Após uma hora, estava pronto. Abri. Retirei cuidadosamente a assadeira e observei que ele estava todo amareladinho, corado, exalando o perfume de um tempero primoroso. Garfo e faca em mãos e fui à prova final.

 

Cortei um pedaço. Coloquei-o na boca. Deixei-o descansar sobre a minha língua por um instante, para que se ambientasse. Enquanto isso, tocava “Ziggy Stardust”, Ziggy played guitar… Mastiguei. He played it left hand… Senti o sabor primoroso dele. Ziggy really sang… Parecia um ultimato para que eu continuasse com minhas aventuras pelo fogão.

 

Resultado: minha vida de cozinheira continua. Ziggy played guitar.

 

*Carol Peres é jornalista e escritora. Contato: [email protected]


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