O mais humilde dos vendedores

“Bom dia, senhores passageiros, desculpa atrapalhar a viagem de vocês, é que…”. Sua abordagem inicial é praticamente a mesma, com poucas variações; assim como o encerramento de sua modesta prédica: “Aquele que puder colaborar com meu trabalho, eu agradeço, aquele que não puder, eu agradeço da mesma forma. Deus abençoe a todos”.

O ambulante que se equilibra diariamente nos ônibus da cidade de São Paulo é o mais humilde dos vendedores. A humildade começa na busca por um ponto-de-venda, uma vaga que precisa ser conquistada primeiro no coração sempre lotado do motorista do ônibus.

Por isso, convém ao ambulante de ônibus sempre procurar adular o “patrão”. Afinal, é ele quem comanda os mecanismos de abertura das portas, se poderá entrar ou não, pela porta de trás. Um pacote de graça da mercadoria que está à venda – bala, chiclete, chocolate, salgadinho – é o empurrãozinho para fazer caber a si mesmo no coração do motorista.

Primeira lição de um ambulante de ônibus: tratar sempre bem o motorista e, sempre que possível, o cobrador.

Mas quantas negativas terá de levar, o ambulante de ônibus, até conseguir subir na condução… Tentativas seguidas, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito… vezes sem sucesso – o indicador do motorista dizendo não –, sem, contudo, esmorecer. “Não pode é desanimar”, resume o baiano Carlos dos Santos, de 29 anos, ambulante que trabalha nos ônibus da região de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

Quem conduz agora o Carlos pelos caminhos da zona sul é o Sebastião, motorista com coração tamanho Scania. Está há 25 anos na Viação Paratodos, faz a linha Vila Gomes-Jardim Miriam, é pai de família, tem “dois moleques e uma menina”. Sabe da dificuldade da vida, então faz vista grossa para o veto da SPTrans (São Paulo Transportes, empresa que gerencia o transporte público da capital paulista) contra o trabalho dos ambulantes nos coletivos. “Ele também é um trabalhador. Precisa ganhar o pão.”

Razão e emoção

Para persuadir seu público-alvo, os passageiros, gente que não se encontra exatamente num momento de predisposição à compra, é preciso pontear o discurso com argumentos emocionais e racionais. Vale dizer que está desempregado – mas não está desempregado, ou quase empregado, aquele que vive dessa tarefa? –, que está faltando gás em casa e outras mazelas tão comuns ao dia-a-dia difícil de um trabalhador do Brasil, mesmo que isso não seja bem a verdade. Sobreviver é uma obrigação, acima do bem e do mal. “Se a história é triste, se ela me comove e sensibiliza, eu compro. Se não tiver apelo, não compro”, explica Vanessa Rangel, de 20 anos, uma morena bonita e de coração mole, fiel consumidora, quatro conduções diárias para trabalhar.

O ambulante Carlos dos Santos, que não gosta de contar “mentira”, confia num apelo baseado no humor para vender. Ele anuncia seu produto: “Amendoim japonês recheado com o Viagra do Pelé”. E ensina: “Tem que inventar alguma coisa pra ficar mais engraçado. Quanto mais você chama a atenção, mais você vende. Mas às vezes não precisa falar nada, não”.

Porém, o consumidor dos coletivos já faz ouvido surdo para certos apelos. Por isso, argumentos racionais começam a dominar o discurso de venda dos ambulantes. O homem posta-se ao lado da catraca do cobrador, após distribuir sua mercadoria de mão em mão – estratégia para aproximar seu produto do consumidor, a fim de que gere quase uma experimentação, eliminando resistências, despertando o desejo de compra – e marqueteia: “Happydent é o único chiclete com o selo da Associação Brasileira de Odontologia! Contém xilitol, que não estraga os dentes!”. Persuasão completa: um chiclete que, além de não provocar cáries, é recomendado pelos próprios dentistas. Qual a estratégia, seu moço? “Eu pego a bula dos produtos e trabalho em cima dela.” Seu apelo de venda nasce dos pontos fortes descobertos. O homem é estrábico e, antes que eu consiga me fixar num ou noutro olho, ele salta da condução.

Ônibus cheio é o sonho de todo ambulante, certo, leitor? Público aos borbotões, mais público, mais vendas… Curiosamente, não é. Se o ônibus está cheio, os passageiros não prestam atenção no que o vendedor fala, nem há espaço para a sua livre circulação, em busca do consumidor. O ônibus ideal é aquele que não está vazio nem cheio, mas “com as cadeiras forradas (de passageiros)”, como diz o ambulante Carlos.

Ajudar a mãe

O trabalho de ambulante de ônibus, cestinha de plástico nas mãos, é opção para a crise do emprego no Brasil. Para o jovem pobre que precisa ajudar a família, principalmente quando o pai é ausente, encarar os coletivos é uma das únicas alternativas. Assim é para Charles Moreira de Sousa, de 16 anos. Trabalha como ambulante na região de Santo Amaro agora só aos sábados, depois que voltou a estudar; cursa a 8a série, da 1 às 6 da tarde. Trabalha das 8 da manhã às 6 ou 7 horas da noite.

É evangélico, da Igreja Universal dos Filhos de Deus, tem três irmãos e o dinheiro vai para ajudar a mãe, separada, que trabalha como cozinheira num bar. O pai? “Ele assaltava, minha mão não quis mais.”

Seu modo de trabalho: “A estratégia é sempre tratar os passageiros e o motorista com educação.” Charles sonha em “chegar a uma boa profissão – como operador de máquinas industriais, quem sabe?” e, dessa forma, poder “ajudar a mãe”.

Seu colega de profissão, Fernando de Morais Souza, também com 16 anos, se equilibra todos os dias, das 10 às 16 horas, menos aos domingos, nos ônibus da mesma região. Ele tem mais três irmãos, o pai mora junto também, e o dinheiro… “Vai todo pra minha mãe.” Está cursando a 6a/7a séries do ensino supletivo, no período noturno.

O menino, evangélico da Igreja Universal Deus É Amor, é mais formal que seus colegas, traja sapatos e camisa sociais pretos, calça cinza. Anda, como se diz, na estica. Por isso, parece mais velho, um pai-menino. Quando anuncia seu pregão, ele engrossa a voz e sua figura parece crescer, como se fosse, naqueles instantes, o adulto que se tornará em breve.

A religião é a fonte da humildade e da confiança de todos os ambulantes de ônibus. Segunda lição de um ambulante de ônibus: manter a fé em Deus. Praticamente todos são evangélicos, e o apego a Deus parece lhes proteger, lhes servir de escudo e impulso para ficarem surdos e cegos a tanta dificuldade e prosseguirem com fé inabalável. Deus se acomoda todos os dias na cestinha de plástico que o ambulante de ônibus leva sempre a tiracolo.

 
 

Ambulante faz cerca de R$ 700,00

Uma jornada de trabalho diária de cerca de oito horas rende a um ambulante dos ônibus da cidade de São Paulo cerca de R$ 30,00. Esses trabalhadores puxam jornada de seis dias por semana, o que deve render, num mês (por 24 dias trabalhados), pouco mais de R$ 700,00, ou dois salários mínimos.

 
Carlos, Charles e Fernando vendiam os mesmos produtos: chocolate Sonho de Valsa Mais (R$ 1,00); amendoim tipo japonês Mendorato (R$ 0,50 o pacotinho) e bala de goma tipo americana Gomets (R$ 0,50 o pacote).

 
Uma caixa de Sonho de Valsa Mais, com 30 unidades, saiu por R$ 12,00 à vista no Big Preço (local de compras de todos eles, no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro); o pacote de amendoim Mendorato, com 50 unidades, R$ 9,99 à vista; e a bala Gomets (pacote com 30 unidades), R$ 4,99 à vista.

 
Com as caixas dos três produtos, um ambulante faz, então, R$ 43,00 — sem pôr na conta o presente do motorista e sem contar possíveis danos à mercadoria.

 

Um comentário para “O mais humilde dos vendedores”

  1. renato ivo

    EXCELENTE SUA REPORTAGEM!!! VOCÊ ESTA DE PARABENS POIS RETRATOU CORRETAMENTE O DIA – A – DIA DOS AMBULANTES MOSTRANDO SUAS VERDADEIRAS DIFICULDADES, SENDO ATÉ MESMO CONTRA MATERIAS MENTIROSA DE OUTROS JORNALISTAS QUE, POR DIVERSAS VEZES, DIZEM QUE TAIS AMBULANTES SÃO , EM SUA MAIORIA, LADRÕES.. PARABENS MAIS UMA VEZ

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