O professor segundo GD

 

Angelical Henfil,

Lance suas asas cobertas de penas e sabedoria sobre nós, pobres seres nascidos no terceiro mundo, incapazes de reconhecer os acordes da Aleluia de Handel, incapazes de ler o mundo com os olhos de Paulo Freire, mas personagens em carne viva do Canto Geral de Pablo Neruda.

Tentei outro dia ver tevê e seletivamente busquei um programa “provocador”, instigante; e ao sintonizar em uma emissora educativa, deparei com a figura de um abnegado defensor da escola pública e de uma educação de qualidade. Às vezes é melhor dormir mais cedo – descobri que – dependendo do entrevistado – não vale a pena perder uma preciosa hora de sono.

Percebi que, com o tempo, o atropelo da vida moderna, a janela ficou de lado – esquecidinha na parede e até ouvi Paisagem da Janela com o Lô Borges – só para materializar em minhas retinas a visão das montanhas de Minas.

Mas se Minas não há mais (como escreveu o poeta de Itabira), o jeito foi encarar o programa e o abnegado defensor da escola pública, o jeito foi ouvi-lo: “Sabe uma coisa que o aluno nunca vê? O professor estudando. Como ele vai se encantar com um professor que não gosta de aprender?”, disse o GD. Vou chamá-lo de GD…

Se o GD disse que o professor não estuda é porque o professor não estuda, não lê bula de remédio, receita de bolo, rótulo no supermercado e adoece muito porque também não verifica a data de validade dos produtos perecíveis, aliás, acho que o professor não sabe o que quer dizer a palavra perecível. É prudente e urgente que os professores verifiquem no dicionário antes que o GD participe de outro programa de televisão.

Já pensou o GD: “Sabe uma coisa que o aluno nunca vê? O professor provando a merenda escolar”. Como ele vai se encantar pela merenda se o professor não comer os carunchos antes? Como o aluno vai se encantar pela escola se o professor não segue a cartilha do GD?

É engraçado. O GD fala em professor que estuda e fica a dúvida: de que professor ele está falando? Será que é o professor que corre ao lado dele em um parque na zona oeste de São Paulo ou aquele que leciona (em condições paupérrimas) em um lugarejo no interior do Piauí?

Sabe uma coisa que o eleitor nunca vê? O dinheiro público, a verba destinada à educação ser aplicada honestamente. Como o eleitor vai acreditar que o professor é responsável pela miséria, pela corrupção e por todas as mazelas brasileiras?

No fundo o GD sabe que existem bons e maus profissionais em todas as áreas e pasmem – nem mesmo as redações dos grandes jornais estão isentas desse (sem fatalismo) destino comum.

Se fosse o GD, diria: “Sabe uma coisa que o leitor nunca vê? O jornalista escrevendo a verdade (sem distorções) inteira”. Como os leitores vão se encantar pela notícia se o jornalista não reproduzir a verdade dos fatos? Também sei perguntar igual ao GD.

O GD bem que poderia participar de programas de culinária e deixar um pouquinho de lado a sua faceta de consultor educacional. Só espero que o assado não passe do ponto, ninguém ponha pimenta no pudim, porque, senão, logo aparecerá o culpado: o professor.

E dá-lhe GD!

 

Nota da Redação: Para quem não lembra, Henrique de Sousa Filho, o Henfil (1944-88), foi um dos principais cartunistas e chargistas do Brasil. Hemofílico, como seus irmãos, entre eles, o sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho, morreu de Aids, depois de ter contraído a doença numa transfusão de sangue. Henfil desenhou e escreveu em algumas das principais publicações da história brasileira, como o Jornal do Brasil e O Pasquim. Sempre se valeu do humor mordaz para lutar por liberdade política, contra a ditadura militar brasileira (1964-1985). Entre as personagens de seus quadrinhos, destacam-se Os Fradinhos, Capitão Zeferino e Graúna. Desde o ano passado, o professor da rede pública e escritor Sílvio Valentin Liorbano vem escrevendo cartas críticas e satíricas para informar Henfil dos atropelos nacionais. Que Henfil não se esqueça de nos escrever de volta. Liorbano se inspira na própria produção missiva de Henfil, que, durante anos, escreveu cartas cheias de ironia a sua mãe, Dona Maria, publicadas na imprensa. Henfil comentava, então, acontecimentos quase sempre vexatórios do Brasil. O documentário Cartas da Mãe, de Fernando Kinas e Marina Willer, recupera essas cartas e a importância de Henfil. Assista aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=VUgpEL9Cauo

 

4 comentários para “O professor segundo GD”

  1. Jennifer Damaceno

    É grande professor Sílvio quantas saudades…
    Os seus textos, suas crônicas e suas poesias foram as melhores, pois sempre trataram de coisas de fato, e seus sentimentos e as vezes podíamos sair da realidade.

    Atualmente com essa nova sociedade que os pais são obrigados a sair para trabalhar, e seus filhos ficam em período integral dentro de uma escola. A escola acaba sendo o ambiente não apenas de educação para um sonho, mas muitas vezes da vida…
    E o grande responsável é os nossos mestre aquele que deveríamos agradecer sempre.
    Mas em meio em tantas conturbações os professores acabam não conseguindo lidar com todos os seus alunos. E são criticados por fazer além dos seus deveres…

  2. Sheila Silveira

    Grande texto.
    Infelizmente nossa atual sociedade não vê apenas o professor como um educando, esperam que criem, literalmente seus filhos. Como disse a colega no comentário anterior, há certas lições que se aprendem em casa; e se os pais não assumirem novamente a condição de primeiros professores não conseguiremos mudar nosso quadro social e muito menos haveremos de ter cidadãos comprometidos com o meio em que vivem. Muito fácil julgar os professores em sala de aula, colocar neles a culpa, mas difícil é encontrar os meios que os levaram a ter tal nomenclatura.

    Grande texto, Grande Silvio!

  3. Sílvio Valentin Liorbano

    [b][/b]Verbete

    Autodidata. – Ignorante por conta própria.

    Mario Quintana.

  4. Letícia

    Gostei muito do texto, uma crítica que vale a pena ler, pois o mundo tão desatino anda procurando alguma desculpa ou "alguém" para colocar a culpa de que o mesmo anda tão mal. E de quem é a culpa? o Professor, porque é com o "mestre" que aprendemos o fundamental (ler, escrever e algumas coisas mais), Porém, o essencial não é dentro de uma sala, talvez, seja dentro de casa e etc.
    Não sei se foi está a ideia que quis passar, Silvio, mas eu gostei realmente deste texto.

    Beijos.

Comentário