O que vejo aqui de cima

O que vejo aqui de cima?

Vejo o outro lado, janelas abertas e fechadas, cortinas que voam. Lâmpadas que ora acendem, ora se apagam. Vejo vida e me vejo.

Os vizinhos estão acima, abaixo e ao lado e creio conhecê-los um pouco. Acima, mora um senhor, um dos moradores mais antigos do Líbano, prédio onde residimos. É conhecido pelos demais por Zé Leite. Ao lado, que é o esquerdo, mora um casal, nos cruzamos todas as manhãs na saída para o trabalho. Abaixo, e não menos importante, mora uma das representantes do conselho do prédio. Confesso: sempre todo muito cuidado com os barulhos!

Moro no 24º andar e daqui vejo São Paulo, em partes, um mosaico. O viaduto que une as zonas Leste e Oeste está logo ali.

Pessoas o cruzam diariamente. Do lado de cá do viaduto, um prédio simboliza a especulação imobiliária, um elemento da “cidade suspensa” do Impulso Coletivo. Do lado de lá e à sua frente, cortiços e pensões. Há vida e morte debaixo do viaduto.

O Glicério foi uma vila operária e hoje os vestígios permanecem nos contando uma história não tão distante.

A Rua do Glicério é cortada pelo viaduto. Nela, está a Igreja da Paz, que ficou conhecida como a Igreja dos Haitianos. Ela é a igreja de todos os (i)migrantes e refugiados. Acolhe os de longe e os de perto.

Às vezes, pelo ir e vir, me sinto uma (i)migrante; em outros momentos, o Glicério se torna um refúgio.

E do colégio Duque de Caxias, ouço as crianças brincarem.

O que mais observo daqui são as pessoas. Essa paisagem mutante. Ora, estão com pressa; ora, diminuem o passo para acomodarem suas cadeiras nas calçadas e de lá apreciarem o movimento.

A cor desse movimento é dada pelos bolos da doceira com sua barraca na esquina. O ambulante com suas sandálias anuncia: “ É só hoje… é pegar ou largar. Tô fazendo um precinho bom. Venham”.

A padaria, na outra esquina, sempre cheia. Os seus clientes são em geral trabalhadores que ao final do expediente param para um gole.

Lá mais adiante, no final da Helena Zerrener, vejo a entrada da Praça Costa Manso. Lá é o lugar dos encontros, das crianças que correm, das mães que se permitem uma pausa, dos amigos que se reencontram para saborearem um “japonês”.

Em dias de ensaio do Batuq do Glicério todos se soltam e se envolvem. Daqui do alto a batida emociona, faz estremecer por dentro. O Batuq ocupa com a sua batucada. São jovens, crianças e adultos no mesmo ritmo.

Poderia ficar daqui apenas observando, mas quase sempre não me controlo (que bom!) e desço. Desço para ocupar e pertencer.

 

 

Foto: Flávio Edreira

 

2 comentários para “O que vejo aqui de cima”

  1. HUMBERTO DE AGUIAR

    na sua cronica você fala de vida e morte debaixo do viaduto eu sei qual é , meu pai era alcoolatra e saia comigo e passava no viaduto para beber, ele guardava a garrafa no painel de luz ,eu me lembro isso em 1982/83 ele faleceu em 1984 ai no edificio , outra coisa que vc comentou é a padaria em frente fui muitas vezes ai com minha mãe, colegio também me lembro, logo na segunda esquina do colegio uma casinha azul velha bem na curva da rua dos estudantes morava uma tia minha, só que em 2010 quando fui ai perguntei umas pessoas mais poucas me deram noticias.

  2. HUMBERTO DE AGUIAR

    Carina boa tarde, tenho 40 anos sou casado morador da cidade de CAMPO BELO-MG , durante minha infância morei no Libano , minha historia se mistura com libano morei uns 4 anos , tinha alguns parentes na rua dos estudantes , na verdade todos parentes da parte do meu pai morou no glicerio, minha historia é grande, no libano foi só tristeza, mudei para MINAS GERAIS em 1984 com 6 anos com minha mae e irmãos. só que como você gosta de contar histórias , pensei se você talvez poderia desvendar uma para mim, tinha um zelador do prédio que se chamava SR Burrego, ele já faleceu a poucos anos, em 2010 eu estive ai na porta mais o zelador ficou meio com medo de mim por isso não fiz mair perguntas e fui embora. Minha familia com sobrenome VOCE é isso mesmo, tinha um apartamento onde eu morei sei que se não me engano era no 17 º andar só nao sei o numero, será que esta apartamento ainda pertence alguem da familia ? seria possivel olhar com zelador pra mim o livro de registro dos moradores, algum documento antigo do prédio ? se tem alguem com este sobrenome no prédio ? Isso se possivel se não, pode deixar te agradeço muito, prazer escrever .

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