O Samba da virada

 

 

 

Boêmio Henfil,

 

Rondei o centro da cidade de São Paulo dia desses e veio, sem nenhuma percepção dos sons ao redor, a canção Ronda e a imediata lembrança de Paulo Vanzolini. Cantarolei com voz insegura e saudade afinada e senti falta do marcante timbre grave da cantora Marcia.

 

Cantarole Ronda com o autor, na voz envolvente de Marcia:

 

Há sempre a voz de uma mulher na vida da gente e, no seu caso (como você era e é fissurado), os pés femininos em esmalte escarlate. Se a gente começa a falar de mulheres, logo abre uma cerveja e a conversa desanda – e resta ouvir mais uma canção do Paulo.

 

Já estamos na época do correio eletrônico, mas confio no voo da graúna. Sei que minha carta chegará durante o solo angelical do cavaco de um querubim. Sei que as palavras ocuparão a boca da noite e o seio desnudo da madrugada – sei que no firmamento existe Adoniran e uma boa roda de samba.

 

Por aqui a gente espera a virada – não a virada cultural – a virada de mesa na educação, na saúde e na política. É como diz o dito popular: se a gente abaixa e vira demais, aparece o que não deve e um político sacana interessado em cuidar do nosso cofrinho. Pimenta no cofrinho dos outros é refresco.

 

Por aqui a gente nem sabe de quem corre – porque um fuzil AR-15 é inofensivo perto da caneta de alguns deputados. O fuzil é um símbolo estúpido de guerra, mas as canetas (um dia arma dos poetas) destroçam gerações inteiras. Por aqui a gente samba miudinho na luta diária pela sobrevivência.

 

Outro dia os professores gritaram, no Viaduto do Chá, a insatisfação salarial do funcionalismo público e as péssimas condições de trabalho. Dizem que alguns integrantes daquele partido da labuta querem mesmo é fod…r a vida dos educadores.

 

O Vanzolini e o Chico Buarque sabem que vai passar este tempo de toma lá, dá cá; o tempo do jeitinho, do bloco dos batedores de carteira engravatados, da construção de estádios e da falta de escolas no interior do Maranhão; um dia passa a doença da corrupção com uma boa dose de um antibiótico chamado: vergonha na cara.

 

Por aqui a gente espera a virada – não a virada cultural com suas mortes e arrastões – a virada de consciência, a negação de tudo que é torpe e funesto. Por aqui os milhões de brasileiros dignos não ensaiam gritos de gol e sim o derradeiro Samba da virada.

 

Jornalirista

 

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