O último dia

 
Enquanto observava o pelotão de trás, bem de trás, dos participantes da 54ª edição da Corrida de São Silvestre, disputada nas ruas de Luanda no último dia do ano, prova da qual não sei quem saiu vencedor, comecei a me recordar.
Eram homens que corriam com tênis comuns, de solado baixo, bem baixo, nada afeitos aos das estrelas do atletismo, e alguns estavam mesmo descalços. Eram homens com cabelos tingidos, descoloridos, ora meio amarelos e meio negros, ora meio azuis e meio negros. Alguns marchavam com roupas de baixo femininas, a meia-calça preta de renda, na arrelia.
“Am-bu-lân-cia! Am-bu-lân-cia!”, gritavam gargalhando os que, como eu, acompanhavam por diversão a prova, para os corredores que já se mostravam cansados.
Enquanto observava o esforço desses homens simples, correndo no último dia do ano, lutando para alcançar a linha de chegada, me recordei de que esse mesmo dia bem poderia ser o meu último dia sobre a terra. E, pela possibilidade de ser esse o meu dia derradeiro, como notaram os grandes narradores do passado, urge contá-lo, transformá-lo em testemunho vivo.
A você, que por ventura me lê cinco, dez, quinze, vinte anos depois da minha morte, na hipótese pouco provável de essas letras não terem se transformado em poeira digital, saiba que sou um homem com o coração cheio, nesse dia. Como a maré que avançou sobre a Ilha de Luanda, invadiu a avenida e soterrou muitos carros. O mar enche dentro da gente, com calma e com fúria, com amor.
Esses homens que avançam vacilantes à minha frente, pelas ruas esburacadas e empoeiradas de Luanda, tenho-os correndo dentro de mim, com compaixão. Parecem meus sentimentos, no pelotão de trás. Correm como eu, esses homens, atrás do tempo.
Esse dia bem pode ser o meu último, por isso preciso dizer algo importante: que hoje faz calor, que estou com fome, estou cansado, estou com saudade de você, que te amo mais que tudo, que me sinto sozinho. Coisas assim essenciais, porque tudo importa no meu último dia.
Essas três semanas em Luanda me jogaram diante dos enfrentamentos mais básicos do mundo, exigindo revisão absoluta e máximo jogo de cintura. A pele que se arranca do meu couro, feito cobra. “Seremos mais capazes”, disse-me outro dia um jornalista da TPA, a Televisão Pública de Angola. Também acredito, mas não tem sido fácil.
Nunca me senti tão sozinho. Há um clima de negatividade no ar denso que me desassossega: a miséria que dilacera a gente por dentro, a corrupção que a ausência do básico dissemina, indiscriminadamente. Na menina que oferecem por dinheiro. Por onde vou, tem sempre alguém a me pedir uma “gasosa”, isto é, um troco. Precisam, mas isso cansa.
Luanda é uma cidade precária. Por exemplo, quem não tem gerador de energia em casa, como a ampla maioria, vive no escuro muitos dias, porque falta luz com frequência. Água encanada é ainda artigo de luxo. E o esgoto corre a céu aberto em quase toda a cidade, nas ruas de terra, nas ruas de asfalto, também. Faz imaginar, com temor, os problemas todos que inundam os dias de chuva.
 
As habitações são paupérrimas, muitos conjuntos habitacionais de um, três, cinco andares que lembram as construções do BNH brasileiro, mas ainda mais precárias, mais deterioradas. Também há os milhares de barracos sem reboco esparramados por onde dá, e por onde mesmo não dá. O governo promete amplo projeto habitacional e urbanístico para as áreas de favelas, mas muita gente desconfia. Se lhe arrancam a casa, para onde ir?
Congolenses
Tio João, inebriado, me conduz, trôpego, pelas ruas do bairro dos Congolenses, um lugar de dar dó, fundado por imigrantes da República do Congo e da República Democrática do Congo (ex-Zaire), países que fazem fronteira ao norte com Angola.
Tio João é, como todo bêbado, simpático e divertido. Da flor em sua lapela esguicha vinho. Vive dando piruetas pelas ruas, fazendo choça com os operários chineses que estão construindo a nova Luanda (os chineses vieram a Angola cumprir pena, o que faz jus à expressão “trabalho de chinês preso”).
Trabalha como uma espécie de administrador e vigia do estádio São Paulo, aqui, onde também vive, ao lado dos chineses. São dois campos de várzea mal conservados onde se disputam jogos do Girabairro, o torneio entre bairros de Luanda; o Girabola é o campeonato nacional de clubes. Tio João se diz especialista em fazer as demarcações de cal no campo e sonha com uma vaga na organização da Taça de África das Nações.
Depois enrola a língua no buraco do pivô ausente para assegurar seu valor: “Por onde vou, mesmo assim, de sandália, sou bem recebido. Agora vão dizer que estou a andar até com branco. Esse povo não tem mesmo instrução”.
Tio João está devendo bebida e um homem se enfurece com ele, na cobrança. “Você está a brincar comigo!” Seu João desconversa e acelera o passo: bêbado demora, mas paga. Alguns metros atrás já pendurara, em outra casa, mais uma Cuca fresca, a cerveja mais popular da cidade.
Despeço-me de Tio João mais à frente; não poderá ser o meu guia, como queria, pois sente o pé direito, machucado. “Não nos veremos mais?”, questiona, inquieto. Acho que não, Tio João.
O meu último dia acabou. Amanhã, se Deus quiser, será o último de novo.
Feliz último dia para você, feliz último ano novo. Todos os dias, todos os anos.

 

7 comentários para “O último dia”

  1. Felipe

    Meu amigo, você volta até abril, né? Você tem um casamento pra presenciar. Não fuja, nem se esconda.

  2. Guilherme

    Guilherme

    Obrigado
    Eu quero jamais esquecer, em nenhum dia da minha vida, uma coisa só: de que todos vocês são as pessoas mais importantes da minha vida. E ler o que vocês escrevem me anima demais, e posso dizer que sou um homem muito feliz, mesmo.

    Obrigado, amo vocês demais.

    Gui

  3. Andréa

    No meu último dia, quero dizer a você

    Que estarei sempre ao seu lado, quando você precisar
    Que desejaria que este fosse mesmo o meu último dia longe de você, pois a saudade dói demais.
    Que você perdoe meus erros, porque sou imperfeita
    Que quero passar a eternidade com você

  4. Carlos Brazil

    Congolense !!!!
    Amigo Guilherme,

    Está chegando o último dia antes da grande Taça de África das Nações Orange – Angola 2010. A bola rolando há de trazer alegria a seu coração.

    Evoeh

  5. Alexandre Azevedo

    Aproveite a oportunidade de fazer o inusitado
    O título do comentário anterior saiu errado

  6. Alexandre Azevedo

    Aproveite a grande oportunidade de fazer o inusita
    "Os verdadeiros vencedores na vida são pessoas que olham para cada situação com a esperança de poder resolvê-la ou melhorá-la."

    Ae bibona! Saudades de você meu brother! Sai dessa, toma uma Cuca fresca! Come um chocolate que tudo vai ficar bom!

    Abraços,

    Alexandre

  7. Juvenal

    Meio cheia
    Compreendo sua visão, mas procure agir como o otimista diante da garrafa pela metade: ela está meio cheia!
    Bjs, Juva

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