O último professor de datilografia

Dona Leila era professora de datilografia. A primeira e última que conheci, lá pelos já distantes anos 1980. A senhorinha, muito magra, de pequena estatura, tinha longas unhas, que, definitivamente, não combinavam com alguém que vivia do ato de datilografar. Mesmo assim, era uma profissional competente e habilidosa. Suas aulas, inclusive, me ajudaram muito a obter uma boa classificação no concurso de um antigo banco estatal no qual trabalhei.

Tinha o hábito compulsivo de fumar cigarros Continental sem filtro. Acendia o próximo tubo de nicotina na guimba que estava a dispensar. As pontas de seus dedos indicador, médio e polegar da mão direita eram amareladas pelo acúmulo de nicotina.

Lembro-me muito bem de sua severidade ao controlar os alunos (quase todos muito jovens) que ocupavam, em geral, metade das vinte e poucas máquinas Remington a cada aula na pequena sala do bairro paulistano da Penha. Dona Leila observava todos desde sua mesa ao lado da janela, tragando insistentemente. Quando percebia algum movimento diferente, se aproximava: “Terminou a lição?”. Diante da resposta positiva, trazia um novo cartão com a sequência sugerida para a próxima sessão de exercícios a serem metodicamente batucados nas teclas das velhas Remington: “ASDFG ÇLKJH ZXCVB :.,MN QWERT POIUY ASDFG ÇLKJH ZXCVB :.,MN QWERT POIUY ASDFG ÇLKJH ZXCVB :.,MN QWERT POIUY ASDFG ÇLKJH ZXCVB :.,MN QWERT POIUY…”.

Não sei como está. Há anos não tenho notícias dela. Nem ao menos sei se continua entre nós. Só sei que, como disse, foi a última professora de datilografia que conheci. Duvido que, nesse mundão de Deus, haja hoje sequer um ser que se apresente: “Olá, sou professor de datilografia”.

Pois o mundo tende ser cruel com algumas profissões, e tenho ultimamente me sentido o último professor de datilografia, também.

Explico. Com certo orgulho, costumava me apresentar, quando questionado (ou não): “Olá, sou jornalista”. Pois sinto-me agora uma pessoa que perdeu sua profissão, “sem lenço e sem documento”, como diria aquele antigo compositor baiano.

Acho que o jornalismo deixou de ser, nesse Brasil tão carente, uma profissão, e se tornou uma atividade remunerada, uma ocupação que não demanda muita especialização, nem, tampouco, esforço. Podem dizer que sou formalista, que fui influenciado pela desregulamentação da profissão, após decisão do Supremo Tribunal Federal de 2009 que sepultou a exigência de diploma universitário para o exercício do jornalismo. Mas não é só isso. As novas tecnologias, as mudanças na sociedade (sua evolução ou involução, escolham), o modo como as pessoas hoje se informam e a facilidade de acesso aos mais diversos tipos de “informação”, a forma de apurar e de editar notícias, as relações e a ética praticada pelos profissionais e colegas… Nada disso permite mais a caracterização de um corpo profissional, de uma categoria.

São pouquíssimos os que, de fato, se dedicam e “correm atrás da notícia”. Nossos veículos têm adotado linhas de expressão que são muito mais políticas e marqueteiras do que editoriais. Os esforços pela sobrevivência de veículos e profissionais têm feito muitos fecharem os olhos para a ética e os princípios exigidos do jornalismo e dos jornalistas. Isenção é uma palavra em extinção.

Saudosista, conservador, velho, fechado às mudanças e a modernidades. O leitor pode me classificar como achar mais adequado, não me importo. O que sei é que o jornalismo como o conheci, e como o pratiquei, está a morrer, a se esvair, e isso dói muito, muito.

Sinto-me, irremediavelmente, como o último professor de datilografia a cobrir com pesadas capas pretas as derradeiras máquinas de escrever que, a partir de agora, vão acumular camadas e camadas de pó, fuligem, tristeza e saudade.

 

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