O vazio que a gente sente

 

 

A frase parece irredutível, mas não é. Não sou poeta, nem filósofa, sou gente; e de gente pouco entendo, ainda menos compreendo. Só sei desse vazio que a gente sente ao divagar por essa vida. Eu, você, o meu marido, a minha filha, o meu pai. O vazio, essa janela que não fecha. Por que sei? Por que generalizei a gente? Porque, poxa, eu ouço falar desse vazio quase sempre, e não sou nem psicóloga.

 

O vazio. O que seria ele? Um ninho vazio. O ninho que não preenche tão facilmente. A respiração pesada, o tempo que não cura. O vazio pode se preencher, assim como se preenche o balão. Para alguns, rapidamente, sem muito esforço; para tantos outros, longa e demoradamente.

 

Ah, como é ridículo esse vazio conosco, esse ar que não encontramos, essa melancolia que não passa, o buraco que não fecha, a porta que persiste em não abrir, assim como o cheiro que não quer sair.

 

Vazio de uma vida muitas vezes em vão. O vazio taciturno, agudo, sem chamas. E não me atire pedras, por favor, não estou depressiva. É que hoje insisto em buscar outros caminhos, outras cores, amores. A vida vaga tão depressa que me opus ao vento, e não teve chuva que lavasse este corpo. Chuva boa, insana, que lava a alma, chuva que pode curar o vazio. O vazio de uma saudade, daquele amor, das escolhas, das distâncias, do momento.

 

O vazio não é pertinente. E pode tornar a ser, se você não buscar preencher esse vazio. Como? O vazio se preenche com ar, com esperanças, com desejos, com metas, com objetivos. E, claro, com muito amor. Pode bastar tudo isso, e você ainda sentir aquele vazio de acordar de madrugada, ou não querer acordar, ou o vazio de um ano em vão. A questão é buscar o ar, aquele ar matador, que deixará o balão cheio por muito tempo. Eternamente, acredito que seja difícil. O balão esvazia e, quando se vê, estamos vazios e sem fôlego, desacreditados, ansiosos, tentando lembrar como preenchemos o balão da última vez.

 

Opus-me a acreditar que encontraria, no pôr do sol, as mais delicadas respostas e o mais leve dos ares. Observei, durante dias, e de nada adiantou. As respostas não vieram, o sol se foi e o vazio ficou. Aquele vazio, sim, ainda não o preenchi.

 

Hoje temos um outro sol, ou até uma outra chuva, e um dia para começarmos tudo outra vez. E você, esperança, apareça. Que seja na xícara de café, na mordida da maçã ou no sexo logo pela manhã.

 

*Angélica Weise é jornalista e pesquisadora de comunicação.

Um comentário para “O vazio que a gente sente”

  1. Thais Polmeni

    Lua de sangue
    Surreal!!
    Meu próximo texto fala também sobre esse tipo de sentimento, às vezes traduzidos em raiva, decepção, descrença… Será que foi o fenômeno da Lua da Sangue que estimulou toda essa onda?
    Assim como a lua, estamos em contínua fase de transição! Que venha agora o preenchimento do balão 🙂
    Parabéns pelo texto, Angélica!!
    Beijos

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