O vir a ser

 
Certamente o operador de máquinas desempregado Eugénio António Domingos Paulo, de 24 anos, vai viver um dos dias mais felizes de sua vida no próximo domingo, 10 de janeiro.
Às 18h50 (horário local), no estádio Nacional 11 de Novembro, município de Kilamba Kiaxi, região metropolitana de Luanda, ele será um dos cerca de 1,5 mil participantes do espetáculo inaugural da 27ª edição da Taça de África das Nações, que Angola sedia pela primeira vez.
“É muito importante para mim e para o meu país. Estou muito orgulhoso”, sorri, num dos intervalos do ensaio geral na Cidadela Desportiva, sob sol de feitor.
Eugénio integra o segundo quadro do espetáculo cultural, com duração de dez minutos, que retrata a história de Angola desde suas origens, a escravatura e segue até a Proclamação da Independência, conquistada a 11 de novembro de 1975.
O primeiro quadro do espetáculo, com cinco minutos, é uma saudação de boas-vindas ao público, que deverá lotar os 50 mil lugares do recém-construído 11 de Novembro, e às 16 seleções continentais classificadas para a fase final da maior prova do futebol africano.
A terceira parte do show vai retratar, também em dez minutos, a luta pela reconstrução e as potencialidades de Angola, com muitas loas ao governo do presidente José Eduardo dos Santos, do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Aliás, caberá ao presidente a declaração de abertura oficial da competição. Futebol e política se combinam à perfeição em qualquer parte do mundo e aqui não é diferente.
Entretanto, Eugénio sabe a arte de dissociar a festa do povo angolano da festa dos governantes do país. E analisa criticamente as diretrizes, num país onde a voz oficial é diariamente dominante e o governo é, de longe, o principal empregador. “Falta muita democracia em nosso país.”


Eugénio (à dir.) pede democracia em Angola, ao lado do portuário e compositor Romão Mujito Sande.

Segundo o rapaz, o desafio que se coloca à frente “é a luta para a verdade”: “Nosso governo é muito obscuro e deve ser aberto ao povo. Ainda existem muitas coisas escondidas e precisam dar cara a isso”.
O rapaz, que estuda administração hospitalar no Instituto Médico de Gestão e sonha em fazer faculdade, vai mais longe e pede mudança no comando do país, dirigido há 30 anos pelo mesmo presidente: “Se ele [José Eduardo] fez melhor, agora devemos dar oportunidade a outros que façam melhor ainda”.
 


O presidente José Eduardo dos Santos, na inauguração oficial do estádio Nacional
11 de Novembro, em Luanda, dia 27 de dezembro.


De família numerosa, com 12 irmãos, e já vivendo em matrimônio informal, Eugénio mira o futuro: “Há uma dificuldade muito grande de emprego. O governo precisa dar mais olho à juventude, porque, até aqui, ela tem tido poucas oportunidades”. Quer ver os de cima saírem de sua “neutralidade” e “pressionarem seus pupilos”.
Por duas instituições brasileiras tem muito apreço: o futebol e a Polícia Federal. Diz que basta o meia-atacante Ronaldinho Gaúcho tocar na bola para ficar feliz. Mas a polícia? “Eles pegam forte, e pegam na hora”, afirma, agarrando o ar.
No domingo, Eugénio pegará firme, também. Dará o seu melhor pelo país. Evoluirá sorrindo, sob os olhos superiores das centenas de altas autoridades de seu país, assentadas lá na tribuna. Mas a bola, ela é perfeitamente esférica e rola no relvado verde. O vir a ser, o gol.

Compartilho abaixo alguns dos meus bons momentos aqui, em Angola. São vídeos sobre o estádio Nacional 11 de Novembro, inaugurado oficialmente no dia 27 de dezembro:
Vídeo da véspera da inauguração, foi a primeira vez que entrei lá:
https://www.youtube.com/watch?v=VnSTf8XSd6I
Vídeo da festa de inauguração do estádio 11 de Novembro:
https://www.youtube.com/watch?v=4uQZ4k3szbA
Outro vídeo da festa de inauguração do estádio, com os iniciados de equipes caçulinhas:
https://www.youtube.com/watch?v=aPwRwcHdKGU
 

2 comentários para “O vir a ser”

  1. Lidia

    Olá,
    fiquei sabendo a pouco pela web sobre o incidente com o ônibus do Togo…lamentável
    Aguardamos os comentários e noticias do Jornalirismo

    Abs/Lidia

  2. Carolina Peres

    Carolina Peres

    Mais uma vez a política se esconde atrás da bola.
    Belo texto! Tanto em Angola como no Brasil os governantes escondem-se atráz do sucesso e da paixão pelo futebol, de seus nativos. Um governo com mais de 30 anos já é uma ditadura. E pelo jeito a política vai de mal a pior. O interessante que se percebe no texto é o fervor e o amor que os angolanos têm pelo seu país. Colocar tudo isso em prol de direitos mais igulitários e uma política mais honesta seria interessante. Talvez chegou a hora deles perceberem que juntos podem fazer muito mais do que imaginam.
    Parabéns pelo texto

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