O xixi, a massa e o traço

Estou com um nódulo no seio esquerdo e um cisto no ovário direito. Nada grave, mas essas disfunções fazem-me ir ao médico religiosamente todos os anos, para controlá-las. Numa dessas ocasiões, tive de reter urina e beber bastante água para fazer uma ultrassonografia pélvica.

Dia do exame, uma segunda-feira, uma hora de atraso: “Os procedimentos estão lentos porque outras USGs (sigla de ultrassom) foram mais complexas. Vai demorar mais um pouquinho, desculpe-nos o transtorno!”, avisou a atendente na sala de espera.

Esbravejou, então, um rapaz: “Já tomei nove copos d’água, moça, desde as nove da manhã (eram mais de 10h30)! Agora quero fazer xixi! Fico segurando?”, questionou, como bom nordestino, estava “arretado”. Confesso que também estava, como boa filha de nordestinos que sou.

Porém, tentei acalmá-lo: “Moço, sei como é complicado ficar segurando xixi, também estou na mesma situação. Mas a culpa não é deles, é a demanda de exames”, disse. “Pois é, ‘fia’, mas preciso ir trabalhar e não tô aguentando mais”, ele prosseguiu.

Eu recorri à meditação. Não sou expert, que fica em posição de lótus e ecoa um “Om”. Simplesmente me aconchego, sentada com as mãos nos joelhos – ou em prece –, penso numa palavra de afeto, fecho os olhos e respiro. Foi o que fiz, já sentindo as dores (da “bixiga”) na bexiga.

Pedi o mesmo ao homem: “É só pensar. Logo será atendido”, exclamei. Não sei se ele ficou “cabreiro” com tal convite, mas seguiu a sugestão. Acomodou-se na cadeira de plástico amarela, emparelhou os joelhos e ficou pensativo, não fechou os olhos.

Silêncio. Não reclamou de mais nada.

Não sei se foi a providência divina, mas depois de quinze minutos a senha dele, de número 92, foi chamada. E ele, num pulo, foi fazer o exame. Eu me mantive firme, de olhos fechados, mentalizando. Não senti mais dor alguma.

Dez minutos depois, ele voltou: “Ah, que bom ‘fia’, o médico disse que eu tinha uma pedra no rim. Agora a doutora fez o ultrassom e tenho mais nada”. “Que bom”, respondi, feliz pela boa-nova, enquanto ele ia embora da clínica particular onde estávamos, no Tatuapé, zona leste de São Paulo, a vinte minutos de São Miguel, onde vivo.

Em seguida, finalmente, a minha vez. Exame rápido, ida ao banheiro nem tanto. Os resultados – que saem na hora – deram tudo bem, entretanto, é necessário esperar a impressão dos laudos para entregar ao médico no retorno.

Saí da sala e esperei o envelope. Nisso, à minha frente, estava uma senhora, já com cara de cansada. Ela tinha cabelos curtos, de estatura baixa e segurava com carinho a mão direita bem inchada.

Puxou, então, uma conversa, falando da demora em atender, mas que finalmente saberia o que ocorre com braço dolorido: “Nunca tive isso na vida, menina! Já oporei de um nódulo benigno no pescoço – fruto do cigarro, que não larga há trinta anos –, mas esse braço já tá me matando”, lamentou-se, com a voz roufenha dos fumantes.

“Deve ser tendinite, seu braço está com bastante líquido. Digo isso porque quando desenho ou escrevo à mão demais, esse problema me ataca e o pulso fica meio inchado. Há alguns anos, fui ao médico e me recomendou acupuntura, é muito bom”, repliquei.

Ela, esticando-se na cadeira, respondeu: “Fui a dois ortopedistas no posto de saúde e só me passaram analgésicos, nem uma chapa do braço pediram! Daí meu sobrinho juntou o dinheiro e me deu para vir aqui. Esse sobrinho é de ouro, muito bom para mim, sabe? É trompetista, faz de festa de debutante a banda de axé. Já até apareceu na TV”, ela sorriu e, no fundo dos óculos de lentes grossas, vi naqueles olhos castanhos a expressão de carinho e amor pelo sobrinho, que trata como filho.

Ficamos por um instante quietas. Virei-me para a porta fechada, cuja placa estampava a palavra “ultrassonografia”. Nada do envelope. Absorta em meus pensamentos, logo interromperam-se os devaneios com o cutucar de dedos em meu ombro.

Era, novamente, a tia do trompetista: “Será que o ortopedista vai mandar eu parar de fazer as massas? Faço pizza, rissoles, salgados. Ah, adoro ficar com o rolo de macarrão amassando, abrindo as massas”. Suspirou e emendou o papo: “Seria a morte para mim se ele dissesse que não posso fazer isso mais. Você desenha, não é, filha? Compreende meu sentimento; se ele dissesse a mesma coisa para você, não seria a morte, não é, não?!”, suspirou, procurando em meus olhos uma réplica.

Sorri e respondi que o médico não diria isso. Incentivei-a a procurar novas receitas, novas formas de fazer as massas sem recorrer tanto ao rolo, o amassar a massa, o esforço com as mãos.

Tudo tem o seu jeito, as suas alternativas.

Chegou o envelope com o exame e nos despedimos como velhas conhecidas.

Eu com os desenhos, ela com as massas.

E a vida vai seguindo, ao traço das mãos habilidosas do destino.

 

Foto: Keli Vasconcelos

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