Ocupados

Henfil,

 

Tá todo mundo ocupado no Brasil. Os políticos, ocupados em se defender de um punhado de acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e toda sujeira que eles fazem em nome da “democracia”. O ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ocupou um hotel em Nova York e parece que é monitorado por uma tornozeleira eletrônica – é que o sujeito já foi jogador de futebol e a tornozeleira é justamente para evitar que ele dê um pique até o aeroporto mais próximo.

O governador de São Paulo está muito ocupado com uma revolucionária reforma educacional: pretende fechar algumas escolas (algumas em lugares ditos nobres, como a Escola Estadual Fernão Dias Paes, que fica na avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo – talvez um local visado pelos interesses imobiliários de grandes construtoras.

 

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Ocupação dos estudantes da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. PM na porta. Rovena Rosa/Agência Brasil 13-11-2015

 

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Reunião dos estudantes, durante ocupação da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. Rovena Rosa/Agência Brasil 13-11-2015

 

E por falar em construtoras, existem alguns homens da construção tentando desconstruir acusações de compra de votos em algumas licitações desgovernamentais. Mas e o ex-presidente? Dizem que desesperadamente procura tirar o seu da reta. O problema é que o povo está sempre com o seu na reta, mas a política brasileira (nunca na história deste país) esteve com a bunda tão exposta na janela.

O que alivia é saber da ocupação de alguns prédios escolares pelos estudantes de São Paulo – espaços sempre ocupados por eles, mas sem a devida cidadania ou consciência da importância da juventude em toda e qualquer mudança social.

O governador de São Paulo (um homem de frases e gestos infelizes) despertou nos estudantes, professores e pais um sentimento de pertencimento e um olhar mais cuidadoso em relação à memória de pessoas que estudaram nestes espaços, ao trabalho de professores que ecoam desde o passado até o tempo das ocupações.

 

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Estudantes bloqueiam vias da Zona Oeste de São Paulo com cadeiras e cartazes, contra projeto de reorganização das escolas do governo estadual. Rovena Rosa/Agência Brasil 30-11-2015

 

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Ocupação da Escola Estadual Caetano de Campos, região central de São Paulo. Comissão de alimentação. Rovena Rosa/Agência Brasil 25-11-2015

 

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Estudantes da Escola Estadual Diadema saem às ruas para defender escola. Rovena Rosa/Agência Brasil 18-11-2015

 

Vivemos um tempo singular – um momento de estopins sociais e o receio é sempre que uma fagulha acenda o pavio. São os sem-teto, os sem-terra, os sem-caráter e mais recentemente os sem-escola. Poderia apelar para a palavra vergonha, mas ela mesma envergonhou-se em alguma página do Houaiss.

Ouvi uma voz mais radical pelas ruas – pedia ela a imediata desocupação do Palácio do Governo de São Paulo. Mas quem proporia tamanho absurdo? Um morador de rua. Alguém que não tem teto, nem terra, nem escola. Argumentou que a construção não servia para nada, já que as pessoas que ocupavam a morada jamais cumpriram o que foi prometido.

Pensando bem, a educação, a moradia, a saúde, o transporte público, os salários miseráveis da maioria, a vida indigna de milhões de pessoas, a falta de segurança – enfim, todas as mazelas advindas da inoperância de governos federais, municipais e estaduais justificariam a desocupação de alguns prédios públicos.

Sei, não. A impressão que fica é de que a ocupação da maioria dos homens públicos é o desvio, a conversa fiada, a bravata, a gravata e o terno na grife – a sacanagem de colarinho-branco.

O pior é que eles nasceram num país inventado por eles – um lugar tão distante dos estudantes “invasores” de suas próprias escolas. A vista um pouco turva com o gás lacrimogêneo dos “democratas” – mas a certeza de que um dia mandamos cada um deles à merda – isso se a merda suportar o cheiro de cada um deles.

 

Jornalirista

 

 

Foto do Destaque:

Estudantes bloqueiam vias da Zona Oeste de São Paulo com cadeiras e cartazes, contra projeto de reorganização das escolas do governo estadual. Rovena Rosa/Agência Brasil 30-11-2015

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