Olhos

Fui a uma oficina de museologia, dia desses. Seriam só algumas horas, mas de muita valia, pois trataria de rotinas de comunicação dentro de um museu no Centro da cidade de São Paulo, próximo da avenida Paulista.

 

 

Resolvi, após o curso, almoçar em uma casa de massas que fica no Conjunto Nacional, o quadrilátero de escritórios e galerias que fica na esquina da Paulista com a rua Augusta, e aproveitar para comprar ingressos para uma peça de teatro em cartaz no local. Estava louca para degustar novamente um prato de macarrão integral com muçarela de búfala, tomate-cereja e abobrinha, que apreciara certa vez em um passeio com uma amiga. Algumas regalias para uma alma triste não fazem mal, não é mesmo?

 

A boca salivava às 13h35, nem tinha terminado de pagar pelo prato e lá estava ele, quentinho, no balcão. Uma passada na área de acompanhamentos e eis-me salpicando queijo ralado e um pouco de polenta em cubinhos. Dava garfadas com a mesma alegria de abocanhar um pedaço de bolo de chocolate com muito recheio, daqueles bem açucarados, sem ironia.

 

Enquanto vivenciava o êxtase do paladar, comecei a olhar as pessoas ao meu redor, a maioria executivos engravatados, moças com pose de mulherões, equilibrando-se nos saltos, discutindo sobre trabalho-curtidas-metas-estética, não necessariamente nesta ordem.

 

Do meu lado direito tinha um casal, que me chamou a atenção: eram dois colegas de trabalho, publicitários, eu acho, que comiam macarrão ao sugo e salmão grelhado. Coisa chique para mim, acostumada com pê-efe, confesso. O prato que eu apreciava era chiquérrimo, imagina o deles?

 

Pois bem: o homem, que aparentava uns 35 anos, alto e rechonchudo, contava para a colega, que era loura, mais baixa e aparentava ser mais nova que ele, sobre o filho pequeno: “Não sabia o que o menino tinha. Chegava em casa e nem podia chegar perto dele, chorava, me respondia mal. Daí não aguentei e perguntei a ele por que me tratava daquele jeito e ele nem me deu bola. Depois, conversei com minha esposa e vi que quem não dava mais bola era eu. Fomos para a terapia de família e agora estou melhorando”.

 

A jovem ficou contente de ouvir o bom êxito daquela situação e eu também, enquanto reparava em duas mulheres vendo slides no notebook, mais à frente. A mesa de refeição virara de reunião e constatei uma garrafa só de água mineral sem gás e um teclado para debruçar em cima da mesa. Observei os olhares delas, tensos e turvos, alheios ao que acontecia à volta, concentrados nos compromissos, omissos à vida que passa. Ali era local de reunião, não o que chamamos de restaurante.

 

Penso eu que o homem que mencionei, o que tinha divergências com o filho pequeno, viveu momento semelhante. Devido às tribulações, já não separava mais a casa do escritório, a diversão dos dilemas. Ainda bem que teve tempo para abrir os olhos e ver o que estava acontecendo.

 

Em minha abstração, a fome saciou, a muçarela de búfala sumiu, o macarrão perdeu o viço… Não tive escolha e saí daquele microcosmo, agradecida pelo privilégio de parar e perceber e ver um pouco melhor com óculos novos, recém-chegados neste rosto meu.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

 

2 comentários para “Olhos”

  1. Keli Vasconcelos

    Oi Thais, obrigada por ler o texto e por ter gostado! Pois é, fui apenas duas vezes ao Subito e o preço é salgado, mas vale a pena a gente fazer uns agrados para gente =) Muita luz!

  2. Thais Polimeni

    Thais Polimeni

    Nossa, esses dias eu estava salivando pra ir ao Subito (foi lá que você foi, né?) e pedi o prato que eu sempre pedia 5 anos atrás. Quando o caixa me falou o valor, eu quase caí pra trás. É uma delícia, mas eles estão sem noção nos preços.

    Adorei o texto! Amo a Paulista e seus personagens

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