Os cinco moços

Na estação, o trem seguia vagaroso para a região do Brás, no centro da capital paulista. Havia, entre centenas de passageiros, cinco moços. Eles vendiam porta-documentos, a módicos um real cada. Capas coloridas, três divisórias, parcos compradores naquela venda que se tornara o transporte deles.

Um dos rapazes, sentado no chão do vagão, estava com uma cicatriz bem grande no rosto, fruto de uma das fugas dos vigias, porque é proibida a comercialização nos trens, plataformas e estações. A marca rasgava a pele morena, castigada pela luz solar e pelas espinhas da, já perdida, adolescência.

Embora fosse triste a história, aqueles moços ostentavam as aventuras de suas vendas, inclusive o da cicatriz contava aos companheiros a maior delas: ter que “inventar” uma profissão para a futura sogra.

‒ Tô saindo com uma mina aí!, disse ele enquanto passava a mão no rosto ferido.

‒ É mesmo, tio? E ela é da hora?, interessou-se o amigo.

‒ Ela é dez, muito da hora! A mãe dela é que tá meio desconfiada do que eu faço. Mas falei pra ela: ‘Senhora, sou trabalhador, não faço nada de ruim, não’. Aí ela disse: ‘É, meu filho, vi você dia desses indo cedinho pra estação de trem’. Aí eu menti, né? Falei que trabalhava com uns caminhão, lá pras bandas da Sé, ri, ri!

O amigo, por sua vez, deu uma gargalhada, lançando uma provocação:

‒ Cê é trouxa! Devia ter falado assim: ‘Senhora, sou trabalhador, trabalho e ganho bem. Trabalho no metrô!’.

Todos riram daquela situação, olhando uns para os outros e também para si próprios. Naquele momento, não existiam mudanças, perspectivas prósperas e longevas. A trilha era aquela, o rumo era aquele: porta-documentos, trocados, fugas da fiscalização, ora uma gratificação a mais para sair com a namoradinha, ora ostentar um celular novo e rir das piadas envidas via “zap-zap”, um tênis bacana talvez.

O trem para.

Estação Brás.

Hora de fechar as mochilas, fechar as vendas. Os homens da fiscalização podem estar à espreita.

E lá se foram os cinco moços, correndo, após soar o alarme que avisa o fechamento das portas do trem, pela plataforma em direção ao marco-zero da cidade de concreto.

 

Foto: Keli Vasconcelos

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