Os homens não são búfalos

Para Paulo Freire

 


O educador Paulo Freire: 
educação é libertação.

 

O Brasil de 1921 não sabia do aparecimento do educador Paulo Freire – não sabia que nas terras nordestinas do Recife ele surgiria para ir além das fronteiras da terra natal e de sua nação.

Considerado um dos pensadores mais significativos e humanos da história da pedagogia mundial – não só por sua verve acadêmica (suas teses), mas principalmente pelo olhar generoso, pelo trabalho singular dedicado aos oprimidos.

Embora tenha nascido em uma família de classe média – o menino Freire leu o mundo ao seu redor e descobriu a pobreza e a fome na depressão de 1929. Talvez o ser humano só amadureça na dor.

Apesar dos percalços – das intempéries sociais todas –, o menino tomou corpo e, já diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife (1961), formou um grupo para testar seu método de ensino na cidade de Angicos, RN. Lá alfabetizou 300 cortadores de cana em apenas 45 dias, num processo que se deu em apenas quarenta horas de aula – e sem cartilha.

Com respaldo do governo do presidente João Goulart, projeta o Plano Nacional de Alfabetização, que previa a implantação de 20 mil núcleos – os chamados círculos de cultura em todo o território nacional.

 


Aluno sendo alfabetizado pelo
Método Paulo Freire.

 

Após o golpe militar de 1964, a iniciativa de alfabetização é extinta. Paulo Freire leu o mundo ao seu redor e passou setenta dias preso por ser considerado um traidor. Provavelmente por ser um idealista – um homem que cria na educação como forma de libertação do oprimido, forma de superar com lápis e papel o jugo das baionetas.

Paulo Freire esteve exilado na Bolívia e trabalhou no Chile por cinco anos. Mesmo distante do Brasil, seu trabalho continuou tendo como foco os mais necessitados – ampliou seu olhar e leu nos olhos do continente a miséria da América Latina. E, mais tarde, da África.

Estamos no mês de setembro de 2011 (século XXI) – Paulo Freire completaria 90 anos de idade. Faremos festa, dançaremos ou não. Talvez alguém defenda alguma tese – talvez alguém faça um documentário – um longa-metragem – quem sabe alguém escreva uma biografia – homenagens justíssimas.

Na definição de professor do teólogo Leonardo Boff: “O professor é uma espécie de missionário que leciona em um bairro pobre pela manhã, à tarde num bairro de classe média alta e à noite num bairro de pessoas ricas. Só o professor é capaz de ligar as classes sociais”.

Talvez Paulo Freire tenha aberto um diálogo fecundo com as pessoas (independentemente de classes sociais) e tenha valorizado a profissão docente – e apontado a importância de ter gente disposta a formar gente.

Estamos em setembro de 2011 (século XXI) – Paulo Freire completaria 90 anos de idade. Faremos festa, dançaremos ou não. Talvez a melhor homenagem a ser oferecida ao ser humano e ao educador Freire seja a retomada do Plano Nacional de Alfabetização – a retomada de um movimento que faça das pessoas cidadãos e não apenas eleitores.

Os homens não são búfalos. Os homens reagem.

Nota da Redação: Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, em Recife, e morreu em 2 de maio de 1997, em São Paulo, aos 75 anos. Freire revolucionou a educação, principalmente o processo de alfabetização de adultos, ao defender o ensino das primeiras letras com base no cotidiano dos próprios alunos, no conhecimento que os alunos já dispunham. Segundo Freire, professor e aluno seriam companheiros de uma mesma jornada, próxima, avessa a hierarquias, num processo educacional baseado eminentemente no diálogo (o dialogismo). Seu livro mais conhecido é Pedagogia do oprimido, lançado em 1970. Com o passar dos anos, o educador concluirá que educação é política, uma vez que se trata de processo de emancipação e libertação do homem, algo muito maior do que a simples transmissão de conhecimento. Quem quiser saber mais sobre a obra e as ideias de Paulo Freire, o site Biblioteca Digital Paulo Freire reúne obras e iconografia (acesse aqui).

Fotos: Arquivo da Biblioteca Digital Paulo Freire.

 

Um comentário para “Os homens não são búfalos”

  1. Beth Soares

    Grande Homem
    Homenagem mais que merecida ao grande ser humano que foi Paulo Freire… e que ainda é, graças à sua obra.
    Adorei!

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