Palavras e dor

Tenho ficado longos períodos sem escrever. Não porque não pense em nada, pelo contrário. Minha mente fervilha, pulsa, grita insistentemente. Desconfio de que tenho escrito tão pouco, porque escrever me dói.

Dói, porque, por mais que eu queira fechar os olhos, todos os dias, de um jeito ou de outro, acabo encarando um monstro bem de perto. Eu vejo a miséria, a fome, a dor, o abandono e seus parentes. Eu vejo a morte em vida. Mas também a vida, no que para a maioria seria a morte. Esse (des)equilíbrio é ensandecedor para quem vê e sente o outro. Porque o outro sou eu.

Sou eu ali, na favela que eu visito. Sou eu sem água encanada em 2016. Sou eu, aos setenta anos, subindo várias vezes ao dia um morro íngreme para chegar em casa, cheio de armadilhas prontas para destruir meus ossos frágeis. Sou eu quem perdeu a única renda, porque algum burocrata achou que minha vida não era suficientemente miserável para merecê-la.

Sou eu andando na lama fétida, de chinelos, cumprimentando os filhos e netos dos meus vizinhos, e silenciando diante da constatação de que estão usando drogas às onze horas da manhã, na minha frente e na frente de seus pais. Eu estou vendo o pedido de socorro de todos eles e das meninas da vizinhança e da minha família, violentadas todos os dias, mas me sinto impotente para fazer algo. Porque tudo é normal. E o que é normal também dói. Mas é uma dor com a qual a gente se acostuma.

Doeu ouvir que o posto de saúde era bem pertinho, só trinta minutos andando. No meio da lama. Com dor. Cansado. Carregado. Doeu ver o orgulho por viver ali há vinte anos, sob as telhas que molham a sala. Porque dói, mas dói mais quando chove. Doeu olhar os tijolos das paredes sem reboco, que não podem ser contados, porque ninguém na casa conhece os números. Doeu ver a sujeira se acumulando na porta da cozinha, porque não há forças para levar o lixo diariamente até o pé do morro.

Eu vi tudo aquilo e me vi. Ouvi os gritos dos donos da verdade das redes sociais me dizendo que eu sou vagabundo, que não mereço viver com o mínimo de dignidade. Eles não dizem com essas palavras, mas eu sei que é isso que querem dizer. Sei que querem que eu suma, que eu morra. Mas eu continuo aqui, sujando a paisagem. Você acha que dói mais em quem?

Demoro para escrever, porque me dói ver o que tem sido feito com as palavras. Porque, para mim, elas são sagradas. Não no sentido elitista e mesquinho, mas no sentido do que representam como manifestação dos dons humanos. E percebi que não é preciso ser humano para saber escrever. E quantos exemplos de criaturas profundamente humanas que nunca tocaram numa caneta? Isso, sim, doeu muito.

Então eu decido, de tempos em tempos, abrir mão das palavras, apesar de amá-las tanto. Fiquei só com as imagens por um tempo. Presas na retina ou na lente da câmera. Mas, não sei se infeliz ou felizmente, acabo não resistindo às letras. Talvez, porque a dor seja grande demais para segurar aqui dentro. E gritar não resolve (sim, eu já experimentei).

A poesia está em todos os lugares para onde olho. Mesmo as coisas amenas me tocam. Olhei-as e me calei por meses. Até ver os olhos daquele homem velho. Ver quando ele os secou com os dedos, tentando escondê-los de mim, quando me ouviu dizer que eu acreditava nele e na sua dor. Como não crer numa dor que também é minha? Ele não sabe ler, mas leu o mundo como poucos eruditos. E eu me senti analfabeta diante dele, embora as palavras dançassem numa gênese criativa frenética, mais vivas do que nunca na minha cabeça.

De volta à minha casa, Marcus, com quem divido as minhas palavras e também o meu silêncio, me perguntou por que eu estava tão calada. Eu só franzi as sobrancelhas e balancei a cabeça negativamente, como quem finge não ter nada extraordinário para dizer. Ele entendeu a importância e a gravidade da minha dor-silêncio e a respeitou. Porque é preciso escolher com muito zelo as palavras que vão contar coisas como estas. E ainda assim dói. Mas também cura.

 

Créditos da imagem: http://doutissima.com.br

3 comentários para “Palavras e dor”

  1. Raunith Martin

    Obrigada por escrever nossos sofrimentos diários como assistentes sociais no cotidiano, vivenciando as dores dos corações humanos na luta contra o sistema agressivo que nos consome.
    Muito bom.
    Um abraço.

  2. Beth Soares

    Beth Soares

    Obrigada pela leitura e pelas palavras, Germano. Um abraço!

  3. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas

    As malezas das periferias e o descaso público, como não escrever? Texto muito maravilhoso, gostei abraços e escreva valeu!

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