Para não esquecer jamais

 

Minas Gerais nunca esteve nos planos, mas suas nuanças já habitavam os caminhos por mim percorridos desde um bom tempo. Em 2012, fui a Extrema cobrir um evento, que gerou o texto “Cansaço”, publicado aqui no Jornalirismo. Além disso, estudei com mineiros na faculdade, trabalhei com outros como freelancer, já conversei com alguns, pessoal e remotamente, pelo computador.

 

No final de 2013, que fora um ano promissor, tive muitas perdas, com rupturas muito ruins. O engraçado é que, durante o período, apareceram várias situações em que Minas Gerais se materializava: ora um palestrante de Belo Horizonte, ora um caminhão estacionado no mercadinho perto de casa cuja placa era de Juiz de Fora.

 

Decidi cometer, então, uma ousadia: me daria de presente de aniversário, que é em abril (quase nasci no dia 21, Tiradentes, mas calhei no dia 28), uns dias em Minas. Detalhe: nunca viajei de avião, nunca fiz uma reserva de hotel, nunca me aventurei por outra capital senão a de São Paulo.

 

Sendo filha de nordestinos, deveria ir para o Nordeste. Mas no coração pulsava, Minas Gerais, Minas Gerais… Então, seguindo os preceitos do grande mestre Yoda, há situações em que não existem tentativas: ou faz ou não faz. Fui e fiz.

 

Aqui conto os dias em Ouro Preto e Mariana.

 

12 de março de 2014

Quarta-feira chuvosa em São Paulo, voo às 8h50. A aventura começou no aeroporto de Guarulhos, pois meu irmão me desembarcou no portão errado (era terminal 4 e ele me deixou no 2. Peguei um ônibus, que me transferiu para o correto).

 

No avião, sentei-me na poltrona bem perto da janela e da turbina, e não senti medo. Vendo as nuvens pela janela, o tempo ficando bom e a diferença brusca entre a plana São Paulo e a ondulante Minas, percebi como somos tão diminutos, tão finitos, como perdemos tempo com coisas muitas vezes ínfimas. Foi bom sentir a luz do sol pela janela, comer balinha de gelatina em formato de avião e elogiar o vestido da aeromoça, que era lindo, todo azulado.

 

 

Observar a vida da janela do avião dá uma outra perspectiva

 

 

Desembarquei no aeroporto da Pampulha (Carlos Drummond de Andrade) e peguei um ônibus para a rodoviária de Belo Horizonte. Engraçado: as linhas são memorizadas por números, ou seja, você não vê nos letreiros dos pontos nomes, como em São Paulo – Parque D. Pedro ou São Miguel. Por exemplo, é 2004 (Pampulha), 5250 (Cidade Administrativa)… Mais engraçada é a reação das pessoas, quando eu perguntava o itinerário. Da rodoviária, comprei a próxima passagem para Ouro Preto. Duas horas de viagem, que foram quase o dobro por causa do trânsito.

 

Cansada e alimentada apenas com um pacotinho de biscoito salgado recebido no avião, confesso que estava varada de fome. Mas não tão estafada o bastante para não reparar no sotaque das pessoas, no “Não tem de quê” em resposta ao “Obrigado”, no andar dos pedestres, no escutar “Moço” e “Moça” para qualquer um, seja jovem, seja idoso.

 

Na poltrona à minha frente estavam duas professoras, folheando um catálogo. Uma delas disse: “Nah (detalhe: homens falam ‘Noh’)! Aqui tá falando que essa vasilha esquenta arroz. Duvido, naaaah!”.

 

Nisso, parei na minúscula rodoviária de Ouro Preto. O hotel ficava a poucos metros, na Rua São Miguel Arcanjo (que me deixou feliz, pois o nome lembra o bairro onde vivo, São Miguel Paulista), leve descida em meio aos cascalhos e muitas casinhas.

 

A estalagem é simples, colonial e o uniforme dos funcionários lembra vestimentas do século XVIII, XIX talvez. Tratei de tomar um banho, comer no restaurante do hotel e pedi que uma van me deixasse no Centro Histórico.

 

Eram mais de quatro horas da tarde e a maior parte das igrejas fechava as portas. Me dirigi ao Largo do Coimbra, onde fica a famosa feirinha de produtos em pedra-sabão, bijuterias e camisetas. Estava vazia e fui abordada por Cláudia, de 34 anos, nascida e criada em Ouro Preto e com duas filhas, uma de dez e outra de um ano e meio.

 

Seu marido é carioca e ele compra as peças prontas no Rio, para serem envernizadas e lapidadas em Minas. “A pedra-sabão bruta é levada para vários cantos e nós compramos tudo já feito. Meu trabalho é talhar os vasos, fazer imagens neles, pintar e envernizar”, me explicou.

 

Conversei com a maioria dos expositores, que reclamava das baixas vendas mesmo após o agitado Carnaval. Voltei e chamei a Cláudia. Sorridente, ela me separou as três melhores corujas que tinha. Limpou-as e perguntou qual delas levaria. Respondi: as três.

 

“Nah! Ocê vai levá as três? Muito obrigada, moça, não vendemos nada hoje”, ela exclamou e talhou “Ouro Preto – MG” nelas, paguei e deixei o troco. Ela me agradeceu com mais um sorriso, um seja bem-vinda e um dos melhores “Fica com Deus” que ouvi (depois ouvi outros, mas esse queria destacar).

 

Liguei para o hotel pedindo o serviço de van novamente. Passava das cinco horas e fiquei na entrada do Centro Histórico, em frente à Praça Tiradentes, onde repousa o monumento do inconfidente cuja cabeça ficara exposta.

 

O sol foi se pondo, jovens saíam da escola, casais se beijavam e contemplavam o momento em meio às montanhas. Fazia tempo que não via o sol assim, tão perto, as estrelas pipocando, a neblina querendo dissipar.

 

Em frente à Igreja Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, eu fotografei o pôr do sol, aplaudi e chorei.

 

 

 

“O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;

Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição

Na torturada entranha abriu da terra nobre:

E cada cicatriz brilha como um brasão.”

“Vila Rica”, Olavo Bilac

 

 

 

13 de março

Cerração densa e sensação de frio grande na manhã de quinta-feira. Na noite anterior, choveu e fiquei na varanda do hotel olhando para o pico Itacolomi, onde a antiga Vila Rica (hoje Ouro Preto) se firmou. Quando fiz a reserva, me disseram que a vista era “prejudicada”. Como dizer isso se posso ver as casas construídas no alto do morro, as nuvens próximas, o verde? Inesquecível.

 

Faria uma maratona de ida a várias igrejas e museus, sem guia, somente com orientação de um mapa e das pessoas em que esbarraria pelo caminho. A primeira igreja em que entrei foi a de São Francisco de Assis, em frente ao Largo do Coimbra. Lá concentram-se esculturas de Aleijadinho, pinturas de Mestre Ataíde e também outras obras que estavam na Igreja Nossa Senhora da Conceição, fechada para reforma. Na saída, encontrei uma espanhola, devia ter uns cinquenta anos, esbravejando por ter de “pagar ingresso” para entrar em local público (é cobrada taxa de entrada quando não há missas para visitação).

A Igreja de São Francisco é um projeto de Antônio Francisco Lisboa,
o Aleijadinho

Depois, segui para a Igreja Nossa Senhora do Carmo, projetada por Manoel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Não havia muitas pessoas e sentei-me bem próximo do altar, ao lado dos azulejos portugueses. Visitei o primeiro museu, o do Oratório, próximo da igreja e do cemitério (a maior parte das igrejas tem um). Lá pude ver os diversos tipos de oratórios, dos mais singelos aos suntuosos, até mesmo os que as donzelas carregavam em seus pescoços, como pingentes.

 

Ao meio-dia fui à Praça Tiradentes comprar, no posto de atendimento ao turista, a passagem de trem para Mariana, para o dia seguinte, onde assistiria a um concerto de órgão, recomendação do pessoal do hotel. Na verdade eu faria só o passeio, mas recebi muitas referências para também explorar a cidade.

 

Neste posto conheci a Rosali, um desafio encontrá-la, pois já procurara por ela umas três vezes. “Menina, foi difícil te encontrar, viu?!”, retruquei enquanto observava o seu olhar assustado. “Nossa, você já veio aqui certa feita, anos atrás, não é?”, me disse. “Não, é a primeira vez que venho para cá”, respondi. “Uai, mas acho que já te vi em algum lugar, porque vi seu ‘rostim’, achei tão ‘bunitim…’”. Repliquei com um sorriso.

 

Paguei a passagem e ela me recomendou voltar de ônibus e ir à Mina da Passagem, uma mina mesmo, de ouro, muito visitada pelos turistas.

 

Bom, ir a Minas Gerais e não conhecer uma mina é como ir a Minas Gerais e não comer pelo menos um pão de queijo. Segui as recomendações, portanto.

 

Após o almoço, me dirigi ao Museu da Inconfidência, localizado na Praça Tiradentes, e a parte que gostaria de dividir com você foi a do pavilhão onde se encontra um memorial, o Panteão dos Inconfidentes, cujos nomes estavam grafados em lápides, uma bandeira de Minas e atrás do visitante, no alto, uma cruz. Os restos mortais de alguns deles também estão ali.

 

Não sei por que senti solidão. Até então, não era assim, pois a todo momento aparecia alguém, de morador a hóspede. Mas, ali, não sei, fiquei contemplativa. Pensando sobre aqueles que ensejavam um Brasil justo, que infelizmente ainda não temos. O segurança do museu, ao me perceber cabisbaixa e de mãos postas, saiu.

 

Ali rezei e, novamente, chorei.

 

 



A Matriz de Nossa Senhora do Pilar é ícone do Barroco brasileiro

 

 

Mais tarde, segui para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, onde repousam mais de quatrocentos quilos de ouro e de prata em pó nas esculturas de Aleijadinho. O caminho para lá é bem complicado, com várias etapas íngremes. Para variar, estava no lado errado e parei numa loja de artesanato para pedir informações. Um outro vendedor iria para o mesmo lugar e seguimos juntos.

 

“É de Minas?”, perguntou. “São Paulo, capital”, respondi, já ofegante. “Nóh, sair duma metrópole como São Paulo e parar em Ouro Preto é porque tem grande motivo”, exclamou. “Precisava de uns dias para pensar, refletir, ver gente, sair, me perder nas ladeiras, me encontrar nas histórias”, filosofei. “Até a gente que vive aqui também fica estressada. Você conhece nosso município de Lavras Novas? Durante a semana não tem muita coisa, mas, nos fins de semana, tem cachoeiras, barzinhos, muita gente pra conversar. Bom demais”, recomendou-me.

 

Anotei o projeto futuro (que não daria nessa viagem), agradeci e contemplei a Igreja do Pilar.

 

Subindo novamente, fui à Casa dos Contos para conhecer como eram cunhadas as moedas e depois à Escola de Minas, Museu de Ciência e Técnica da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Reencontrei a senhora espanhola, aquela que esbravejara por ter de pagar para entrar nas igrejas. Estava com um grupo de franceses e me chamou de “corajosa”. “Não é pra qualquer um sair de São Paulo e ficar aqui sozinha, mocinha.”

 

Concordei.

 

 

14 de março

Sexta-feira, estação de trem de Ouro Preto. Bucólica, esperei a partida da maria-fumaça, pontualmente às dez horas da manhã, em direção a Mariana. Ao me acomodar, vi do lado de fora um senhor tocando sanfona. No meio da viagem, em cima das pedras, estava um jovem de cabelos com dreads, meditando. Ele tomou um susto e começou a xingar. Inusitado, confesso.

 

Na Catedral da Sé, em Mariana, fui ao concerto de órgão Arp Schnitger. Na fila, encontrei um casal da Vila Formosa, também da Zona Leste de São Paulo, onde vivo, e uma estudante de Letras, que mora em Mariana mas é nascida em Belo Horizonte. Ficamos juntos.

 

Se fosse para resumir o concerto, diria: divino. De Pasquini a Bach, não teve um que não se abismasse com a habilidade da organista Elisa com o instrumento, instalado em 1753. Após o concerto, podíamos subir até o andar, onde ficava o órgão, e fazer perguntas.

 

“Há quanto tempo toca?”, questionei. “Desde os meus dezesseis anos (ela aparentava mais de cinquenta)”, respondeu. “Mas por que tocar órgão, ser musicista?”, continuei. Ela ficou sem reação, atrapalhada com as palavras: “Nossa, nunca ninguém perguntou isso! Venho de uma família de muitos artistas. Acho que essa seria uma boa resposta”.

 

Sorri satisfeita.

 

 

“Entre brumas ao longe surge a aurora,

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece na paz do céu risonho

Toda branca de sol.


E o sino canta em lúgubres responsos:

‘Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!’”


“A Catedral”, Alphonsus de Guimaraens

 

 

Após o almoço, segui para a Mina da Passagem, de ônibus. A aventura começou já no embarque, que é pelo fundo e não pela frente, como em São Paulo. Lá conheci um casal de Lins, interior de São Paulo, e descemos com a divertida Camila, nossa guia, para a mina de ouro, minério de ferro, quartzito e itabirito, este que, ao se oxidar, se assemelha ao precioso metal, mas é o de “tolo”.

 

O momento mais complicado foi o da saída, para encontrar um ponto de ônibus. “É logo ali, no coreto”, disse um senhor, que me indicou o coreto-ponto. O casal de Lins voltaria para Mariana e eu seguiria para Ouro Preto. Nisso apareceu, do nada, um motorista num Uno preto: “Vai para Ouro Preto?”, me perguntou. “Sim”, respondi. “Cobro o preço da passagem de ônibus pra te levar”, insinuou. O casal já ia atravessar a pista quando recusei, obviamente, o convite.

 

Em Ouro Preto faltou visitar uma igreja, a Nossa Senhora do Rosário. Me afeiçoei por já frequentar no bairro onde moro uma de mesmo nome, mas não a encontrei. Como seria meu último dia na cidade e estava de volta a Ouro Preto no fim daquela sexta-feira, decidi ir ao Centro Histórico para me despedir.

 

Parei numa lojinha de roupas e, para variar, entrei noutra rua errada. No entremeio de curvas, encontrei a igreja. Faltavam apenas dez minutos para fechar. Linda, singela, não cobrava taxa para entrar.

 

Fotografei, rezei, e sorri.

 

15 de março

Acordei às seis da manhã de sábado, arrumei as malas. Olhei o pico Itacolomi, disse “tchau”, guardei as tralhas, separei a passagem para Belo Horizonte e subi para tomar café e me despedir dos funcionários do hotel.

 

“Uai, fica mais um dia conosco, sô!”, exclamou um deles. Eu também queria ficar lá, me instalar de vez, morar numa casinha no alto da montanha, criar vaquinhas, escrever cordéis, fotografar e orientar turistas, passar fins de semana em Mariana, quartas-feiras no Largo do Coimbra. Mas queria conhecer “Beagá”.

 

Recusei o serviço de van e fui para a rodoviária vendo o sol entre nuvens. Às dez da matina, embarquei para a capital mineira.

 

Voltei em 18 de março para São Paulo, terça-feira, também pela manhã. O saldo da estada em Minas Gerais foi de paixão. Não aquelas “paixonites” ou mesmo as patéticas ou patológicas. Ou podem até ter sido.

 

Aliás, você pode achar até uma bobagem contar essa história, de uma jornalista que nunca viajou de avião, sozinha, muito menos conhecia Minas Gerais, mas, para este pobre ser humano sonhador aqui, foram dias inspiradores.

 

Dias de paixão, dias de coração aberto.

 

Fotos: Keli Vasconcelos

3 comentários para “Para não esquecer jamais”

  1. Cris

    Que beleza de texto, Keli!
    Acho que todo mundo que conhece Minas fica meio abobado com as belezas daqui, né? (ok, ok, sou suspeita pra falar rs). Senti falta só de uma coisa: você contar como foi seu último dia em Beagá? Não valeu nem uma linhazinha? 🙁
    E estranhei outra coisa: essa história de mulher falar nah e homem falar noh! Na verdade, essas duas expressões querem dizer coisas diferentes e tanto homem como mulher fala as duas coisas hehehehe! O "nah" é tipo um "bah!", um som de quem tá duvidando, como a mulher que vc ouviu. E o "noh" é diminutivo de "nossa senhora!", uma exclamação de espanto rs. Também tem o "nuh!", variante de "noh!" kkkkk
    No mais, fiquei emocionada com seu relato e com sua aventura e torço para que volte mais vezes com calma. Faltou mesmo conhecer Lavras Novas, um pequeno distrito de Ouro Preto, que é muito charmoso. Quem sabe não se programa pra voltar e conhecer? Ou então vc volta e vai lá pra Serra do Cipó!

  2. Keli Vasconcelos

    Obrigada!
    Oh, Shellah, muito obrigada pelo elogio! Fiquei emocionada. Foram dias incríveis, que não esquecerei. Vá mais vezes a Minas, com o coração aberto! Bjs e muita, mas muita luz na sua vida! =D

  3. Shellah Avellar

    Ah!Minas Gerais,quem te conhece não esquece jamais
    Querida Keli ,sua narrativa soa..como pegar um "trem BÃO"daqueles antigos de madeira..e percorrer com olhos marejados e bucólicos a Minas Gerais de ontem e hoje desde sempre.Já fiz este percurso a trabalho e em feriados,algumas vezes. Mas relembrá-lo pelos seus olhos vivos e sonhadores,me emocionou sobremaneira.É só desejar que todos que a visitem ..levem na memória a história de homens que lutaram por um Brasil melhor e que mais uma vez..foram massacrados .Que a gente possa se dessedentar nesta Fonte dque jorra vontade de acertar.bjkas kósmikas e parabéns .

Comentário