Pedir, dar e receber

A Bahia está situada no sul da Região Nordeste. A capital é Salvador, terceiro município mais populoso do Brasil. É o Estado que faz limites com oito outros Estados – o Estado que mais faz divisas. Isso pode explicar por que os baianos são tão expansivos, carismáticos e comunicativos.

Santos está localizada no litoral sul do Estado de São Paulo, abriga o maio porto da América Latina. Seus jardins da orla estão no livro dos recordes como o maior jardim frontal de praia em extensão do mundo. E os santistas adoram se vangloriar por esses dois pontos e pela dupla Pelé & Santos Futebol Clube. Não é uma crítica. Como são receptivos, usam esses assuntos para aquecer ou começar as conversas.

O encontro entre esse baiano e essa santista não foi no meio do caminho, mas sim um pouco mais para o sul, em Gramado. Uma cidade linda localizada na Serra Gaúcha. Muito conhecida por receber anualmente o Festival de Cinema.

Uma semana antes desse famoso evento, a cidade sediava o Festival Mundial de Publicidade. Lá estávamos nós, estudantes de Comunicação Social, sedentos por informações, contatos e boas festas.

Palestrantes internacionais. Veículos de comunicação, agências de propaganda e até anunciantes. Todos aproveitando a oportunidade para estreitar o relacionamento com esses jovens. Eram estudantes de todos os cantos do Brasil e do mundo. Depois de três dias de palestras, chegou a grande festa de encerramento.

Fui buscar algo para beber e me pararam. Dois rapazes, dois baianos, muito animados. Um deles vira para mim e diz: “Meu amigo quer te conhecer”. Respondo, “Oi, amigo”, e continuo andando em direção ao bar. Eles me seguem e o tal amigo me diz: “Você vai ser minha namorada”. Respondo: “Nos seus sonhos”. Só que ele estava certo e não foi sonho.

Nos esbarramos em mais alguns congressos. Ficamos amigos. Eles vieram a Santos e a São Paulo. Fui à Bahia vê-los. E o danado do amigo me conquistou. Namoramos, moramos juntos e vibramos um pelo outro em nossas conquistas. Mas também tivemos momentos complicados, como todos os namorados, amigos e até mesmo familiares. E foi num desses momentos que ele me disse: “As pessoas têm que aprender a pedir, dar e receber. Você precisa aprender a pedir e a receber”. De fato, ele tinha razão.

Lembro-me bem da sensação de impotência. Lembro-me de questionar minha capacidade. Lembro-me de perguntar a mim mesma sobre o quanto útil meu conhecimento era. Isso tudo em segundos, exatamente enquanto o gestor me explicava, dentro de uma pequena sala, que a empresa estava se reestruturando e que naquele dia iria demitir vinte e cinco por cento dos seus funcionários. Profissionais de marketing normalmente estão nesses cortes, já que a cultura brasileira vê o marketing como despesa e não investimento.

Pedir nunca foi algo fácil para mim. Pedir estava relacionado a perda, fracasso, dependência, frustração, incapacidade. Demorei algumas semanas para entender o tal “pedir”. Para não ter vergonha da situação, nem de usá-lo, comecei com um pequeno degrau de uma grande escadaria. Separei todos os meus contatos, escrevi e-mails um a um explicando a circunstância e pedi ajuda. Senti muita dificuldade de me expor, mas o fiz. Consegui pedir, ainda que timidamente, mas pedi.

Não foi a única vez que pedi ajuda. Entendi que tudo bem usá-la, com moderação. Passei por diversos níveis de solicitações de ajuda, se é que podemos classificá-las. Profissional, familiar, emocional, financeira. Cada uma começou com um conflito interno, acompanhado de um aprendizado imenso. Não foi fácil; sofri, mas percebi que, quanto mais relutava, mais difícil se tornava.

Hoje vejo que pedir é igual a ajudar, é se relacionar, é trocar, é se abrir, é compartilhar, é amor. E estamos aqui mesmo para quê?

A reposta do pedir é receber. Logo, foram dois aprendizados que andaram em paralelo. Fato é que quem não consegue pedir normalmente se acha autossuficiente. Como irá receber algo? Ou até alguém! E mais: quando pedimos algo, queremos receber o pedido. E aqui deparei com uma pessoa um pouco mimada e imatura. Mas a vida não funciona assim, as pessoas não funcionam assim. Minhas expectativas e desejos provavelmente não eram e não são os mesmos das pessoas ao meu redor, muito menos o entendimento sobre eles.

O receber ganhou forma e se transformou no aceitar aquilo que lhe foi oferecido, sem julgamentos, sem preconceitos, sem questionamentos. É confiar, é acolher, é abraçar.

Para entender o dar, a resposta está no apegar, mas também no doar. Não só no material, mas no tempo, no sentimento, no ouvir, em você. Aos poucos fui entendendo que minhas contribuições aos orfanatos e instituições auxiliavam. Porém, quando eu doava a Andréa, isso sim fazia a diferença, não só para eles, mas para mim. Era como se fosse possível turbinar um aprendizado, mostrar outra perspectiva, apresentar o tamanho real de cada questão, olhar para o outro e para si ao mesmo tempo, acolher o outro e se acolher simultaneamente. É estar de mãos dadas e sentir a leveza.

A avaliação é contínua. Pedir, dar e receber. Obrigada, querido baiano.

 

 

Imagem: Arte Jornalirismo

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