Pencas de justificativas

 

Temos o hábito de ir às mesmas barracas na feira-livre de domingo no Jardim São Vicente, em São Miguel Paulista, extremo leste da cidade de São Paulo, pertinho de casa. Uma delas é a de bananas, comandada por um senhor pernambucano, bem simpático, sorriso fácil por detrás dos óculos. “Três dúzias no capricho”, ele profere e habitualmente coloca bananas a mais, quase dando quatro dúzias da prata, a que meu pai, conterrâneo dele, mais aprecia.

 

O fato engraçado é que sempre, quando não vai à banca, o feirante justifica. “Semana que vem não vou ‘tá’ porque vou ficar noventa dias em Pernambuco. Vou visitar mamãe que ‘tá’ doente”, disse-nos certa vez. Depois, perguntamos como foi de viagem, se ela estava bem: “Ah, mamãe já não está tão boa assim, não fala coisa com coisa, está indo”, respondia reticente com um riso triste de canto de lábio.

 

Um dia, ele não apareceu. Perguntamos a outra vendedora de bananas sobre o paradeiro: “A mãe dele faleceu, ficou arrasado. Volta semana que vem”. Noutro domingo, eis novamente contando-nos do ocorrido: “Ah, foi uma tristeza, mas mamãe já estava cansada, não queria ‘ficá’ mais neste mundo. Tinha 91 anos e toda vez que eu ligava pra ela, era a mesma conversa: ‘Filho, não ‘guento’ mais, quero ir embora’. Descansou com a graça de Deus”, pronunciou fazendo um gesto com o boné, em respeito ao nome do Divino.

 

Semana passada visitamos mais uma vez a barraca, com sua grande variedade de pencas em amarelo vivo. Atendeu-nos todo contente, colocou mais bananas, deu desconto e, para variar, justificou-se antecipadamente sobre a ausência do próximo domingo: “Tenho um filho, que namorou um tempão uma moça, morava na outra esquina daqui, ó. Mas a menina só queria farrear e dispensou meu filho. Ficou triste que só e decidiu ir pra Goiânia. Lá, a prima da minha cunhada começou a gostar dele. Aí, essa semana, meu filho me ligou: ‘Oh, meu pai, tirei umas passagens pro senhor e pra mãe. A gente vai fazer uma festinha de noivado”, relatou.

 

No embalo, começou a balançar os braços, sendo que um deles é limitado por causa de uma queda que sofreu quando foi resgatar o cachorrinho da irmã, prestes a cair de um barranco: “Minha mulher que fica ‘zoando’ comigo, fala que eu só penso nas bananas, preso aqui na barraca. Eu que ‘tô abadonado’! Minha esposa só pensa nos netos, nos filhos. Tenho duas netinhas, uma de quatro e outra de dez, e um a caminho do filho do meio, ‘num’ sabe?! Agora, um filho noivo”.

 

Prosseguiu a prosa, orgulhoso: “Tenho três filhos, não tenho do que reclamar deles. ‘Num’ bebem, ‘num’ fumam, ficar nas festas, balada, essas ‘tranqueras’, nem pensam! Nunca falaram um palavrão pra gente; nem café, aquele ‘piquinininho’, eles tomam”. E gargalhou.

 

Então próximo domingo, minha gente, o senhor de Pernambuco, terra de dez letras que não se repetem, não estará na feira. Sai na sexta-feira para Goiânia e volta na segunda-feira para Sampa.

 

Não vejo a hora do retorno para ele contar tim-tim por tim-tim como foi a boniteza do noivado de seu filho mais novo.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora. Contato: [email protected]

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