Peniqueira

 

Ir à feira no Jardim São Vicente, perto de minha casa, em Vila Rosária, São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo, em pleno Domingo de Ramos, é um desafio complicado e complexo. Fica ainda mais cheia de gente, temperos, opções de frutas e, claro, de uma infinidade de barracas vendendo bacalhau, peixe e outros frutos do mar para a Páscoa. Bonito ver as senhoras recém-saídas da missa com ramos nas mãos, presos aos carrinhos.

 

Paramos em uma barraca de batatas e legumes. Íamos comprar abóboras, aquelas que deixam o seu colorido quando a amassamos no arroz branco, cena esta belíssima, digna de encanto.

 

Somos atendidas geralmente por uma senhora, que deve ter mais de sessenta anos, parda, sem nenhum sinal de dente na boca. Gargalhada gostosa de ouvir, exigente: “Cadê o meu bom-dia, mocinha?”, sempre pede a senhora, cumprimento que devolvo com um sorriso largo.

 

— Keli, quando você estava viajando (em março, a Minas Gerais, leia aqui ), aquela senhora perguntou de você. Ela falou: “Também lá em casa tem Kelly (pressuponho escrito deste jeito). Gosto muito da sua filha, ela é engraçada, brincalhona. É gente!”, relatou minha mãe.

 

Pois bem, quando chegamos, naquele Domingo de Ramos, a senhora ainda estava descascando as abóboras e não havia para comprar:

 

— Mas cadê minhas abóboras? – brincou minha mãe.

 

A senhora replicou:

 

— Não tem problema, minha linda, descasco e coloco numa sacolinha pra você. Não vou dar bacia (de isopor) porque sei que vai jogar fora e precisamos economizar, né?!

 

No embalo, ela nos relatou uma passagem de sua vida:

 

— Sabe, filha, sempre quis ter uma barraquinha. Gosto de trabalhar pra mim, sem depender dos outros. Antes, trabalhei doze anos numa casa de família e, por causa da minha patroa, abri esta barraca.

 

— É mesmo, senhora? Ela te ajudou? – questionou minha mãe.

 

Ela nos olhou bem no fundo dos olhos, deu um sorriso e prosseguiu:

 

— Um dia, eu disse: “Sabe, patroa, queria tanto ter uma barraca na feira”. Ela me olhou e retrucou: “Quem nasce peniqueira (leia-se miserável) sempre será peniqueira”. Aquilo me deu tanta raiva, que juntei dinheiro e em dois anos pedi as contas e abri a minha barraca, que começou com lona no chão e ameaça dos outros feirantes. Hoje, soube que minha ex-patroa é fugida da polícia, porque se meteu com quem não presta. Já eu ajo certo!

 

Seus olhos brilhavam enquanto conversávamos.

 

— Adoro quando falam: “Não vai conseguir”. Isso me deixa alvoroçada, cheia de vontade pra mostrar o contrário. A perua (Kombi) que comprei, por exemplo, tem mais de vinte anos! Foi juntando moedinhas, porque não dava mais pra andar de carrinho de mão passando pela estação de trem com água na cintura por causa de enchente. Lembro como hoje, quando entrei na concessionária e o dono, Seu Irineu, que me chamava de “velhinha boca murcha”, me recebeu.

 

E tomou fôlego:

 

— Perguntei quanto custava a perua e, meio de lado, tirei do canto da calcinha o bolo de notas, enquanto ele pedia para o funcionário me atender, como todos os clientes que apareciam. “A senhora passa aqui amanhã, a perua é sua.” Eu não tinha dinheiro suficiente, mas sabe o que ele me disse? “A senhora sabe ler?” Sim, respondi. “Então leia aquela placa – cliente especial. E a senhora é especial.” Peguei a perua no outro dia.

 

E ela embrulhou as abóboras, guardou o dinheiro e deu sua gargalhada sem dentes como forma de agradecimento.

 

Aquela história sacolejou o meu pensamento. Com ou sem dentição, aquela senhora sorri para cada não recebido, engolido na trajetória da vida.

 

É resposta para não ser peniqueiro. É alimento para a gente ser ainda mais forte.


*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

 

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