Política, futebol e religião

 

Dizem que não se deve discutir nenhum destes três temas, caso queira manter a harmonia entre amigos, família e colegas de trabalho. Apenas dizem. Dizem também que brasileiro não gosta de política e que futebol é o nosso esporte favorito. E, sobre esta última característica, faço aqui uma reflexão baseada na teoria Tostines de pensamento: os programas de esporte só falam de futebol porque amamos esse esporte ou nós o amamos porque é o esporte mais comentado na mídia?

 

Em um ano de eleição e Copa do Mundo, fica claro que o problema das discussões não são os temas. O que mais foi conversado nas rodas de amigos, em junho e julho, foi futebol. O.k., todos teoricamente torcendo pelo mesmo time, mas com opiniões divergentes sobre as táticas do treinador ou sobre os adversários. Tivemos uma Copa com muita polêmica, mas um debate saudável. No caso das eleições, manteve-se a polêmica da Copa, mas com uma pitada de egocentrismo e uma certa surdez. Eu ainda não me tornei um espírito elevado com estômago para falar de política com pessoas que já começam a conversa querendo te convencer de que o candidato delas é o melhor. Não adianta você expor suas justificativas, que a pessoa não te ouve. Sempre vai achar que ela está certa e você é um asno por votar em qualquer outro candidato diferente daquele que ela defende.

 

Será que o brasileiro não gosta de política ou é essa nossa característica de manter um eterno clima de Copa que nos faz evitar conversar sobre esse assunto?

 

Eu converso sobre política com amigos petistas, psdbistas, ou de nenhum partido, mas que votaram na Marina, na Luciana Genro, no Eduardo Jorge. Conseguimos ter uma conversa em que cada um expõe suas dúvidas, justificativas e reflexões sobre a atual situação socioeconômica brasileira. Mas eu também respondo para muita gente que não sei em quem vou votar para encerrar o assunto. Dizer que “o voto é secreto” para não causar uma terceira guerra mundial? Sou dessas!

 

Tenho amigas evangélicas, amigos budistas, católicos, agnósticos, ateus e afirmo que sim, é possível falar sobre religião, respeitando a opinião de cada um e absorvendo o que você julga ser melhor para você.

 

Sobre futebol, não tenho muito o que debater, visto que eu não sei a escalação do meu time há muitos e muitos anos. Se eu já soube um dia? Pasmem! Já! Quando eu tinha uns oito anos e brincava de bola com minhas amigas, toda vez que eu fazia gol, falava o nome de algum jogador. Quando eu defendia um chute, gritava: Zetti! Sim, sou são-paulina. Mas teve uma fase da minha infância em que quis virar a casaca e me tornar corintiana. Decisão que meu pai proibiu veementemente (sinto a satisfação e admiração pelo meu pai no peito dos leitores tricolores, neste momento), mas que me fez perder totalmente o interesse por futebol. É, aquela deve ter sido a primeira vez que entendi: “Política, futebol e religião não se discutem”.

 

Não discutimos política e todos concordam que brasileiro não sabe votar (só para lembrar que quem diz isso também é brasileiro). Não discutimos religião e o que impera é a intolerância. Não discutimos futebol e raros são os pais que têm coragem de levar os filhos para ver um clássico em campo. Ninguém quer ver o Brasil mal. Queremos bons políticos no poder. Queremos ter paz de espírito. Queremos nos divertir e nos entreter no esporte. Queremos o melhor! O problema é que, na maior parte das vezes, o melhor é ser política, passar a bola e dizer amém.

 

*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

 

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