Pra mim, o dia nasceu feliz

 

 



Musical retrata a vida de Cazuza, poeta que arriscou ser feliz

 

 

Eis que recebi um presente e, em uma das minhas piores semanas profissionais, ganhei um descanso, um suspiro e um grande respiro. O presente? Um par de ingressos para o musical “Cazuza ― Pro dia nascer feliz”, em cartaz no teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

 

Cazuza: um poeta que me faz querer escrever este texto à altura de seu talento. Decerto, um exagero, uma pretensão, a minha.

 

Lá fui com minha doce Emma assistir a mais um relato histórico e artístico de alguém inigualável e, sim, insubstituível. Cento e cinquenta minutos de emoção, que começou logo na primeira cena. Quando Emílio Dantas, que interpreta Cazuza, ou Caju (como ele era carinhosamente chamado pelos amigos), começa a cantar, todos os pelos do corpo começam a dançar. Não tem como não fazer uma ligação, não tem como não lembrar: sim, o ator pode não se assemelhar fisicamente tanto assim com o artista, mas de personalidade e voz são uma reencarnação. Parece que era ele. Era ele.

 

O musical, com direção geral de João Fonseca e texto de Aloísio de Abreu, é narrado pelos personagens mais notáveis do contexto histórico de Cazuza: a mãe, Lucinha Araújo (Susana Ribeiro); o pai, João Araújo (Marcelo Várzea); o cantor Ney Matogrosso (Fabiano Medeiros); o produtor musical Ezequiel Neves (André Dias); e o músico Frejat (Thiago Machado). Por todos os lados é possível observar o cuidado e o carinho que tinham por Cazuza. Que, por sua vez, era um homem insano na sua mais profunda sanidade. Era louco, sim. Mandava todos se foderem com a mesma facilidade com que dizia que os amava. Não era ódio, era ímpeto. E na hora em que amava, aí, sim, era de verdade.

 

Cazuza amava, mas não era fiel, ao menos no sentido mais corrente. Achava que tudo era livre e a melhor maneira de demonstrar isso era com amores furtivos, em turnês intermináveis, com o grupo Barão Vermelho. Era um homem com o coração puro e o corpo feito para deleitar-se em seu mais profundo pecado.

 

Todas estas características estão estampadas no cenário, na atuação e no figurino perfeitos, que retratam com toda a poesia o frenesi dos anos 80 e a vida do artista. Outro ponto forte presente é o cunho político que ele fazia questão de explicitar. Não se conformava com a pobreza, com a inflação, com a política pública, com a corrupção. Não se conformava que, em seu show, alguém jogasse uma bandeira do Brasil esperando que ele fosse ser patriota orgulhoso. Não, ele era patriota inquisidor, anarquista que cuspia no verde e amarelo sem nem se arrepender.

 

“Pro dia nascer feliz” evolui em ordem cronológica e conta a trajetória de Cazuza desde o começo (ele nasceu no dia 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro, como Agenor de Miranda Araújo Neto). A tentativa inicial de ser fotógrafo, a ascensão como músico, sexo, drogas e rock and roll, doença, entrevista mal interpretada pela revista Veja e morte (no dia 7 de julho de 1990, aos 32 anos), está tudo ali, na dramaturgia.

 

Destaque, também, para o desempenho de Susana, que interpreta uma mãe perfeita. Assim como foi Lucinha Araújo.

 

A vida de Cazuza foi louca, foi intensa, foi perfeita. Oito anos de carreira foram suficientes para imortalizar um homem dramático, romântico, impetuoso, apaixonado e repleto de um talento surpreendente.

 

O musical deixa um gosto de “canta mais, por favor”. Impossível de perder sua riqueza, com atores concentrados e uma história que, pode passar o tempo que for, sempre vai atrair atenção. É, é Cazuza. É eterno.

 

Foto: Divulgação/Leo Aversa

Comentário