A praia e o sentimento do mundo

A primeira vez que fui à praia eu era pequena, devia ter menos de dez anos, quando um finado amigo de meu pai nos convidara para ir ao Guarujá e voltar no mesmo dia.

Como ninguém gostava muito de mar, biquíni e sunga ou mesmo refestelar-se na areia, a gente ia só mesmo pela viagem, para comer camarão no espeto e apreciar os colares de continhas, cujos fechos oxidavam por conta da maresia, das feiras de artesanato. Vez ou outra, comprávamos tais colares e, na segunda-feira, ia para escola, com ares de garbo elegância, dizer que passei um aprazível fim de semana em meio as ondas. Atualmente, só meu irmão que adora o passeio, que faz com os amigos, com direito a prancha e calção, em feriados prolongados.

Tempos depois, porém, fui convidada por uns chegados a um evento na Ponta da Praia, em Santos, sábado à tarde. Estranhamente, não relutei, até senti um pouco de empolgação e, na data, saí logo cedo de São Miguel Paulista até o Jabaquara, onde comprei as passagens de ida e volta no mesmo dia.

O ônibus pegou estrada e no relógio, em seu horário de verão, marcava 13 horas. O tempo foi fechando e numa parte do trecho surgiu a densa neblina que cobria a estrada e com ela, veio o frio. Fiquei pela janela observando aquela consistência branca, que lembrava algodão doce, coberta por um lenço enorme que carregava na bolsa.

Já em Santos, depois da rodoviária, logo avisto a praia e peço para descer do ônibus. Como chegara uma hora mais cedo – ‘mal de quem mora longe’, sempre brinco -, fui à feirinha de artesanato, na esperança de encontrar as bijuterias do passado distante. Em vez de conchas e cordas, linhas e pedras brasileiras, além de saídas de banho e calças de viscose, no lugar das cangas.

O sol estava entre nuvens e o mar flat, sem ondas, para a tristeza dos surfistas de plantão. Meio receosa de marcar bobeira, na paranoia dos tempos violentos em que vivemos, dei só uma espiada de leve para o mar. Logo virei-me, com ares de Carlos Drummond de Andrade e sua contemplação eternizada em estátua nas terras cariocas, e vi as pessoas no calçadão. Homens e mocinhos sem camisa em suas bicicletas, senhorinhas com viseiras, algumas com cachorrinhos, muitos jovens entretidos em seus celulares. Senti falta do carrinho de coco gelado ou mesmo de sorvete e, nessa lacuna, soprou-se o vento do mar.

E eu, encantada pela sereia, decidi contemplar aquela finitude.

Timidamente, beirei-me pela feirinha e fiquei na pontinha da faixa de areia, sujando os pés em sandálias. Coqueiros faceiros, torcendo-se como não quisessem atrapalhar o campo de visa, palmas coloridas enfeitavam a orla. Lá, ao longe, um barco enorme e outras embarcações, em terra firme cadeiras vazias e alguns banhistas, que saiam meio trêmulos por conta da água.

Senti-me em meio a eles, uma banhista sem banho, uma praiana sem praia. Ali tornou-se um espaço de contemplação, de sentir-se diminuta em meio a imensidão daquele mar já castigado. Observei meus pés e os vi meio inchados, meio escuros, afinal, a areia branca dos anúncios de tevê nada mais era que uma areia cinza, poluída, triste até.

Mas nada disso impedia de a natureza transpor sua beleza e força. A praia, em sua fúria de Netuno, nos mostrava que, sim, estava viva e eu, imitadora de Drummond, desejei que o “sentimento do mundo” se concretizasse: um pouco de paz.

A mesma passividade que escorre em minhas duas mãos, em grãozinhos de areias santistas.

Imagem: Keli Vasconcelos

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