Professor João

 

Nunca fui muito chegada em línguas estrangeiras, principalmente inglês, mas sempre me esforcei para aprender. Tirava notas medianas na escola e, com o tempo, senti a necessidade de fazer um curso de idiomas. Assim que terminei o colegial (hoje, ensino médio), em 1999, matriculei-me em uma escolinha em frente ao colégio onde estudei, na Avenida Marechal Tito, em São Miguel Paulista, na Zona Leste da cidade de São Paulo.

 

Alguns meses se passaram e iniciamos as aulas em meados de 2000. A turma, como na maior parte dos cursos do gênero, tinha poucos alunos, uns quatro, e eu estava ansiosa para conhecer o teacher (aliás, é errado dizer teacher, o correto é chamá-lo pelo sobrenome, mas isso é só um detalhe), um pouco atrasado para aquela tarde de terça-feira. Eis que, então, ele surgiu: o professor João.

 

Tinha estatura mediana, magro, pardo, de cavanhaque, trajava jeans e gola polo, sorriso alegre apertado nos óculos e andar leve com suas inseparáveis muletas. O professor João teve paralisia infantil, mas isso não o impedia de sair da região do Itaim Paulista, pertinho da avenida, para dar aulas, subir escadas, atravessar a rua, enfrentar os calçamentos esburacados tão presentes nas ruas brasileiras.

 

O curso básico de inglês durava apenas seis meses, com aulas duas vezes por semana. O professor João fazia do período de ensino um momento de diversão, com jogos, músicas, brincadeiras, como completar estrofes de canções do Phil Collins, dos tempos do Genesis, e decifrar frases faladas com uma velocidade que os norte-americanos dominam bem.

 

Conversávamos bastante e ele ficava admirado de eu saber um pouco de japonês, havia uma troca de informações, portanto: ele me ensinava inglês e, de quebra, eu ensinava o pouco do que entendia, devido aos mangás que lia.

Cinco meses passados, por questões até hoje desconhecidas, o curso foi cancelado. A escola fechou e esvaíram-se as aulas do professor João. Fiquei chateada com o término repentino porque estava tomando gosto pelo inglês. Tempos depois, reencontrei o professor no centro de São Miguel, conversamos rapidamente e seguimos os nossos rumos.

 

Pois bem, na véspera do último Natal, estava atribulada com os preparativos da ceia, que seria na casa de uns primos, na Zona Norte. Não tive tempo nem de ligar o computador para verificar os jornais on-line. Nesse interim, liguei a tevê no noticiário do meio-dia.

 

Como estava muito distraída, com um olho na tela e outro em organizar embrulhos, sacolas e outros apetrechos, não tinha reparado no que passava na telinha, muito menos na foto da pessoa com deficiência física que sofrera um assalto em frente de casa, na noite do dia 23. Foi minha mãe que percebeu: “Keli, esse aí não foi o seu primeiro professor de inglês?”, indagou-me.

 

Fiquei sem chão.

 

O professor João estacionara o carro adaptado na frente de casa, por volta das oito e meia da noite, acompanhado da esposa, quando foi abordado por uma dupla montada em uma moto. Como precisaria pegar as muletas para sair do veículo, não teria tido tempo de dizer aos assaltantes sobre suas condições físicas.

 

Tomou um tiro e morreu.

 

Não conseguia acreditar que, depois de quatorze anos, receberia uma notícia dessas em plena data natalina. Uma pessoa tão boa não poderia receber um ponto final tão execrável.

 

Tudo se resumiu ao estrondo, à fuga.

 

Ao triste fim.

 

Eis a notícia triste que vi na tevê.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e autora do livro “São Miguel em (uns) 20 contos contados” (In House), da “Coleção Jornalirismo”. Contato: [email protected]

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