Quando o Estado Islâmico diz “eu te amo”

Um computador? O.k. Conexão com internet? O.k. Um perfil em rede social? O.k. Pronto, você está mais próximo que imagina de integrantes extremistas do Estado Islâmico (EI), conhecido também por Isis ou Daesh. Foi dessa maneira simples que a jornalista francesa Anna Erelle (o nome da jornalista é fictício) passou a ser uma das pessoas mais ameaçadas do mundo.

Munida da curiosidade, Erelle criou um perfil falso no Facebook para acompanhar notícias do EI, a fim de investigar o motivo que levava centenas de pessoas – principalmente jovens – para as trincheiras de uma guerra insana. Ao compartilhar um vídeo de um ataque feito pelos terroristas na Síria, Erelle foi procurada na rede social por Abu Bilel – um dos maiores terroristas do Estado Islâmico. A partir daí, sua vida muda completamente.

O relato dos contatos com Bilel está registrado no livro Na pele de uma jihadista – A história real de uma jornalista recrutada pelo Estado Islâmico (Editora Paralela, 2015). Bilel, como todo integrante do EI nas redes sociais, promete um mundo encantado a Mélodie (personagem criada pela jornalista para despistar o terrorista) para convencê-la a se juntar ao grupo terrorista.

Na fase de tentativa de “lavagem cerebral”, Bilel também critica o capitalismo, para levar Mélodie ao pensamento extremista, pregado por ramificações do Islã. Em um dos trechos, o extremista (posso chamá-lo de louco?) Bilel diz ganhar o paraíso os que se deixam explodir. “… os camicases são os mais fortes. Nós, aqui, julgamos a força por duas coisas: a fé e a coragem. Quem tem coragem de se deixar explodir por Alá vai para o paraíso com todas as honras, posso te garantir”, diz o segundo homem mais importante do Estado Islâmico.

O livro mostra também o que já é sabido sobre aquela região: mulheres são submissas aos seus maridos ou pais. Não podem andar pelas ruas sem vestimentas adequadas ou sozinhas, por exemplo. Porém, caso queiram “lutar pela causa”, podem aprender a atirar e ir para o combate ao lado dos maridos.

As 203 páginas são importantes para os que têm dúvidas sobre o que é o Estado Islâmico. Erelle aponta como o EI é financiado, o pensamento de dominação mundial e a maneira com que os extremistas interpretam o Corão – livro sagrado do Islã. Em termos jornalísticos, Erelle nos mostra que o excelente jornalismo está vivo. Apesar de agora ser uma pessoa privada de liberdade, Erelle, certamente, salvou diversos e diversas jovens que, por pouco, não caíram na armadilha insana do Estado Islâmico.

Leia o trecho de abertura do livro:

“— Escute! Eu te amo como nunca amei ninguém. Não posso te imaginar nem mais um dia longe de mim, no meio de todo esse vício que te rodeia. Eu vou te proteger. Vou te afastar de todos os demônios do mundo. Quando vir me encontrar, você vai se encantar com este paraíso. Com este país que eu e os meus homens estamos construindo. As pessoas, aqui, se amam e se respeitam. Formamos uma única e grande família, onde já existe um lugar para você: estão todos te esperando! Você tem que ver como são felizes as mulheres aqui conosco. Elas, antes, eram iguais a você. Perdidas. A esposa de um amigo meu já pensou em toda uma programação para quando você chegar. Assim que acabarem suas aulas de tiro, ela vai te levar a uma loja muito bonita, a única no país que vende tecidos de qualidade. Vou arcar com tudo. Você vai criar um mundinho seu com suas novas amigas. Não vejo a hora de te ver chegar. Mélodie, minha mulher! Venha logo, estou te esperando.

Diante da tela do computador, Mélodie arregala os olhos. Sente admiração por aquele homem forte, dezoito anos mais velho que ela. 12 Nunca o viu senão via Skype, mas já o ama. Com uma vozinha fraca, ainda com inflexões de menina, Mélodie murmura:

— Você me ama mesmo?

— Eu te amo por Alá e diante de Alá. Você é minha joia, e o Estado Islâmico é sua casa. Juntos, vamos inscrever nossos nomes na história, construindo, pedra por pedra, um mundo melhor em que os infiéis, ou os kuffar, como chamamos, não terão direito de entrada. Encontrei para você um apartamento imenso! Se trouxer junto umas amigas, escolho outro ainda maior. De dia, você cuidará dos órfãos e dos feridos, enquanto eu estiver em combate. E à noite nos encontramos… Inch’Allah”.

 

capa na pele de uma jihadista

Livro: Na pele de uma jihadista – A história real de uma jornalista recrutada pelo Estado Islâmico (Editora Paralela, 2015, 203 págs.)

Autor: Anna Erelle

Saiba mais sobre o livro no site da editora, clicando aqui. 

Comentário