Quando os homens eram meninos

 

Henfil menino,

 

É bem verdade que toda criança sonha em ser alguém – quem sabe um aviador, astronauta, jogador de futebol na Europa, cantor e uma infinidade de outros desejos que são muitas vezes deixados de lado por causa das quase insuperáveis barreiras sociais, que atrapalham um pouco (muito) e assim cada um cresce e se ocupa do ofício possível para sobreviver.

 

Mas fica a pergunta: “gente” como Adolf Hitler, Benito Mussolini, os generais da ditadura brasileira, a maioria esmagadora dos homens públicos brasileiros, os auditores da Prefeitura de São Paulo, alguns empresários e milhares de pessoas espalhadas em diversos segmentos da sociedade tupiniquim sonhavam e sonham em ser o quê? Homens? Mulheres? Seres humanos?

 

Talvez só Sigmund Freud fosse capaz de decifrar o inconsciente de personalidades tão distintas, mas com um ponto em comum: o total desprezo pela vida. Talvez o esquecimento das crianças que foram seja o maior mal.

 

Um carro italiano vermelho, uma mulher de tantos reais, um apartamento em área nobre, uma cachaça norte-americana, um pó esquisito para cheirar e nenhum amigo sincero por perto. É o preço que se paga pela falta de apreço ao que realmente tem valor na vida: a família.

 

Pois é… Por mais que pareça um papo careta é bom que se diga da importância de uma Dona Maria na vida de qualquer um. Quem não tem mãe ou não ouve a que tem padece – mete os pés pelas mãos –, provavelmente terá dificuldades para olhar nos olhos do filho e despertar a humanidade presente nele – a melhor parte de todos nós.

 

Não pretendo mudar o mundo com uma carta – escrevo para você porque assistia aos seus quadros em um programa matinal de televisão e vi seu jeito de fazer humor e o quanto brincava enquanto falava de temas muito delicados. Época de chumbo e repressão e seu sorriso (só agora entendo) sempre foi nossa melhor artilharia – nosso melhor escudo para enfrentar o que vinha em forma de censura.

 

Cresci um pouco (muito) ao ler suas cartas e resolvi escrever as minhas (mesmo sem o mesmo talento) para dizer um pouco sobre a gente brasileira e o Brasil – país sacaneado todos os dias por uma gentinha vil demais.

 

Tenho mantido o menino vivo e acredito nele como o albatroz acredita na envergadura de suas asas e assim não temo o voo e o que vem pela frente – mantenho o sorriso aberto e faço do humor minha arma – meu modo de enfrentar tudo o que é perverso e insiste em se dizer equilibrado e adulto.

 

Prefiro sentir a mesma fome das crianças do mundo inteiro do que viver rodeado da fartura e da riqueza de certos homens. Acredito na existência de um paraíso (menos azul do que se pinta) e sei que o sofrimento é maior cada vez que nos distanciamos dele. Nosso paraíso é a infância.

 

Jornalirista


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