Quando todos calam

Henfil,

Quando todos calam – digo. E quando todos dizem – calo. Acelero em meio ao burburinho de mais atentados na França – a morte é manchete em tantas partes do mundo e enquanto um homem explode em alguma esquina outro é alvejado pela fome.

Outra vez alguém aperta minha mão. Outra vez alguém discursa na tela e no palanque. Outra vez ele mente. Outra vez ela mente. Outra vez o rombo da previdência. Outra vez a corrupção em pauta. Outra vez a parte do fisco. Outra vez a enchente, o congestionamento, a fumaça. Outra vez o complexo de vira-lata. Outra vez futebol sem arte. Outra vez o jornalismo no cabresto. Outra vez doença. Outra vez o nome do país na lata do lixo. Outra vez…

Diga ao Senna que apesar da sujeira e daquela gentinha de sempre – nós seguimos apenas com a sexta marcha – o país vomitado pelos parlamentares é pequeno diante de quem trabalha – desde os nativos, os cortadores de cana, os agricultores, os cientistas, professores, os garis (que jamais darão conta de varrer a sujeira da política), os médicos, policiais, artistas e todos os trabalhadores que mantêm o Brasil de pé.

Diga ao Senna que nós resistimos ao roubo e estamos exaustos – mas não jogamos a toalha – eles querem roubar o nosso orgulho – eles querem pisar em todos os brasileiros – porém, somos feitos de ébano – desde as nossas origens africanas até nossa mestiçagem com nativos e povos do mundo inteiro.

Atualize o Senna sobre a Copa do Mundo e o quanto passamos vergonha – não pela desclassificação por 7 a 1 – e sim pelo superfaturamento das arenas – a subserviência aos desmandos da Fifa. Nem fale dos jogadores – a maioria jamais entenderá o soco no ar de Pelé – a esquiva e os golpes de Éder Jofre, o choro e a vibração de Oscar Schmidt, o momento de concentração no arremesso de Hortência Macari, os passes mágicos de Magic Paula, o anel da NBA e a raça de Janeth Arcain, o grito de esforço no saque de Gustavo Guga Kuerten, na luta de Arthur Antunes Coimbra Zico para superar a cirurgia no joelho e disputar a Copa do Mundo de 1986.

Estamos em 2016 e sediaremos uma Olimpíada e espero (sem ufanismo) que cada atleta (principalmente do futebol) lembre-se das pessoas que superam um amontoado de mazelas sociais – que jamais subirão em pódios – que não serão medalhistas olímpicos – nem provarão do champanhe dos iates, mas que trabalham todos os dias e vencem tudo. O povo brasileiro é feito da mais pura casta de campeões.

Créditos da imagem: http://www.dibico.com.br

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